Cultura Tradicional
Koinobori
 | | O correspondente aos meninos do Hinamatsuri acontece no dia 5 de maio. Durante os anos de ocupação pós-guerra, o nome do festival foi mudado de Tango no Sekku (Dia dos Meninos) para Kodomo-no-Hi (Dia das Crianças), mas continuou sendo celebrado da mesma forma e somente para os meninos. |
Em todo o país, famílias com filhos homens hasteiam, neste dia, sobre um mastro de bambu, o Koinobori, que é uma carpa colorida de tecido ou papel. Quando o Koinobori é visto tremular junto ao céu azul tem-se a impressão de estar vendo uma carpa nadando contra a correnteza. O Koinobori representa o Dia dos Meninos, e a carpa é um símbolo de força, persistência, bravura e sucesso. Esse peixe consegue nadar e subir correntezas e cataratas sem a ajuda de ninguém, e numa fábula chinesa, a valente carpa se transforma num dragão no final da escalada. Os atributos que a carpa simboliza parecem virtudes militares (persistência, coragem, sucesso), e de fato, ela está em algumas lendas que falam de guerras ocorridas num período remoto, tanto é que nos santuários do deus da guerra, Hachiman, são distribuídos amuletos em forma de carpa.
A prática de hastear o Koinobori surgiu no século XVII entre os plebeus urbanos, que resolveram apresentar uma alternativa ao costume dos samurais de exibirem suas armas e armaduras no Dia dos Meninos. Além de ser mais simples, a carpa de tecido simbolizaria os mesmos valores pretendidos pelos guerreiros sem ser tão ostensivo. As duas formas de celebrar a data foram mantidas por muito tempo. Mesmo atualmente, além do Koinobori no lado externo da casa, os meninos devem expor dentro de suas casas, miniaturas de bonecos de guerreiros, com armadura, arma e capacete.
Os alimentos associados a esta data são o chimaki (bolinho de arroz embrulhado em folha de bambu) e o kashiwa mochi (bolinho de arroz recheado com massa de feijão doce e embrulhado em folhas de carvalho).
É costume também colocar essências ou folhas de íris na banheira (ofurô) nesse dia. Acredita-se que o forte aroma de íris afaste os maus espíritos, e além disso, íris chama-se shõbu no Japão, que é foneticamente igual a shõbu, que significa luta. Assim, os antigos samurais ligavam essa planta à sorte na guerra ou batalha.
Os costumes mudam com o tempo e hoje é possível ver famílias hasteando o Koinobori para suas filhas. O Dia dos Meninos, que agora é o Dia das Crianças, é o último feriado da seqüência chamada de "Golden Week*" pelos japoneses da atualidade, ávidos por um descanso prolongado. Em tempo de paz, o Koinobori continua colorindo o céu e "nadando", mas num outro contexto. * Dia 29 de abril - aniversário do Imperador anterior, dia 1º de maio - dia do trabalho e dia 5 de maio dia das crianças. SEKKU Momo no Sekku e Tanga no Sekku são dois dos cinco "Sekku" originários da China, ainda celebrados no Japão. Durante o período Edo, tais festivais foram estabelecidos para marcar a passagem do ano, e são sempre simbolizados por uma flor ou planta.
Kataná ESPADA JAPONESA - NIHONTÕ Símbolo de força, de uma cultura e de um país, a espada curva japonesa é um ícone universal. Feita artesanalmente com uma técnica desenvolvida ao longo de mil e quinhentos anos, ela é internacionalmente reconhecida como a espada de mais alta qualidade já produzida pelo engenho humano, extremamente valorizada e cobiçada por colecionadores no mundo inteiro. Entre fatos e lendas a respeito deste venerado objeto, Cristiane A. Sato, colaboradora do CULTURA JAPONESA, apresenta a seguir uma introdução ao fascinante mundo da nihontõ, a espada japonesa.ORIGENS DA ESPADA JAPONESA Benedicto Ferri de Barros, apaixonado pesquisador da nihontõ, escreveu uma vez que "de todos os artefatos produzidos pelo homem, nenhum supera a espada japonesa em perfeição artesanal, em riqueza artística, em amplitude de significado cultural, em duração histórica, em conteúdo espiritual. Sob um ou outro desses aspectos ela poderá ser sobrepujada por uma ou outra classe de objetos; nenhuma a ultrapassa no conjunto dessas características". E ele não estava exagerando. Tão diversificado em especificidades é o assunto, que é um desafio explicar numa forma resumida algo tão complexo. Espadas são das mais antigas armas fabricadas pela humanidade, daí que no mundo inteiro e de acordo com culturas locais a espada é um objeto ao qual se deu diferentes simbologias e significados. Via de regra, a espada representa força e poder, dado sua finalidade primeira de ser uma arma. De tal modo uma espada inspirava poder, que a humanidade passou a imputar ao objeto características similares a uma pessoa, tanto que lhe eram nomes individualizantes. No ocidente são famosas as lendas do Rei Arthur e de sua espada, Excalibur. Siegfried, lendário herói germânico, tinha a espada Balmung. Na literatura, as espadas japonesas mais antigas de que se tem notícia são as relatadas no Kojiki, coletânea de fatos, mitos e lendas da Antigüidade japonesa, considerado o primeiro livro oficial de história do Japão, escrito em 712 d.C. Lendas xintoístas no Kojiki relatam que Amaterasu, a deusa do sol, entregou três objetos a seu neto Ninigi no Mikoto, quando o incumbiu da missão de governar o Japão. Um desses objetos foi uma espada, batizada de Kusanagi no Tsurugi. Esses três objetos - um espelho, um colar e a espada - são chamados de "Tríade Divina", ou "Os Três Tesouros Sagrados". A Kusanagi no Tsurugi é curta,com cabo e lâmina forjados numa só peça parecendo um gládio romano, e encontra-se guardada no templo de Atsuta, em Nagoya. Jimmu Tennõ, filho de Ninigi no Mikoto e historicamente considerado o primeiro imperador do Japão, herdou "Os Três Tesouros Sagrados", que desde então tornaram-se símbolos do poder imperial. Há atualmente a idéia pré-concebida de que "espada japonesa" seja a kataná, a espada curva com corte apenas de um lado usada pelos samurais. Poucos sabem, entretanto, que na origem os japoneses usavam e fabricavam espadas bem diferentes dakataná. Aliás, existem vários tipos de espadas japonesas, além da kataná. Nos séculos VII e VI a.C., épocas em que se acredita que tenha vivido o lendário Jimmu Tennõ, os japoneses aprenderam a arte da manufatura de espadas de artesãos chineses. Assim, as espadas na Antigüidade japonesa eram feitas no estilo das espadas chinesas: longas ou curtas, mas retas e com ponta dupla (forma de flecha). Este tipo de espadas são chamadas de tsurugi. Muitas dessas espadas foram encontradas em escavações arqueológicas de túmulos do período Kofun (300 d.C. a 710 d.C.). No século VII d.C., viveu o primeiro dos grandes mestres artesãos de espadas japonesas: Amakuni. Ferreiro do imperador Mommu Tennõ, Amakuni criou durante sua carreira uma nova forma de espadas, pronunciadamente encurvada e de ponta dupla, com corte de um só lado da lâmina virado para cima. Longa (75cm em média), usada pendurada por correntes com uma cinta, esse tipo de espada foi chamada de tachi. Adotada pela alta aristocracia, as tachi foram as precurssoras daskatanás dos samurais. Refinadas e decoradas, as tachi tinham mais função cerimonial do que uso em batalha. A NECESSIDADE FEZ A ESPADA Embora espadas tenham existido desde a Antigüidade no Japão, nem sempre elas foram símbolo de uma classe guerreira e nem eram exatamente populares. Antes de se tornarem a classe governante no Japão, os samurais eram acima de tudo exímios cavaleiros e habilidosos arqueiros. Tão marcante era tal habilidade dos samurais, que o código de conduta deles era chamado de Kyûba no Michi (O Caminho do Arco e do Cavalo). Surgido no século X, o Kyûba no Michi era um conjunto de ensinamentos que procurava impor regras de conduta moral e de etiqueta na guerra, em tempos nos quais não haviam leis ou normas escritas para tanto. Além de preconizar treinamento físico, defendia ideais de coragem, de destemor à morte, de impassividade e de cavalheirismo, sendo um dos deveres do samurai proteger as mulheres. De influência xintoísta, o Kyûba no Michi transmitia valores de ética e comportamento usando figuras de linguagem com as armas e objetos usados pelos samurais. No raciocínio do Kyûba no Michi, a espada representa o homem, e a bainha a mulher. Além do sentido fálico, há a conotação de que a espada representa características consideradas "masculinas", como poder, força e agressividade. Por isso, o complemento ideal da espada é a saya (bainha), que representa características "femininas", como beleza e passividade. "Uma bainha sem espada é um ornamento oco; uma espada sem bainha é usada em demasia", diz um dos antigos provérbios que sobreviveu até nossos dias. Tais ideais práticos foram posteriormente alterados e substituídos na Era Edo (1603-1867), com o advento do Bushido (O Caminho do Guerreiro). Até meados do século XV, a arma mais popular era a yari (espada curta, reta ou curva, montada num cabo longo como uma lança), típica dos ashigaru(guerreiro à pé, de camada inferior). Um confronto histórico marcou o desenvolvimento da espada que se tornaria sinônimo de espada japonesa: a kataná. Em 1274, o imperador mongol da China, Kublai Khan, neto do conquistador Genghis Khan, enviou tropas por mar para invadir o Japão. Embora os japoneses tenham conseguido rechaçar a invasão, perceberam que os mongóis possuiam armaduras mais resistentes e que precisavam de espadas mais eficientes. Certos de que os mongóis fariam uma outra tentativa de invasão, os japoneses desenvolveram a kataná, espada levemente encurvada com ponta em forma de cunha, empunhadura longa para duas mãos e lâmina comprida com corte unilateral, medidindo em média de 60 a 70 cm. Podendo ser segurada com as duas mãos, um golpe com akataná aproveita toda a força de uma pessoa de modo mais eficaz. Sua forma é ideal para rápidos golpes de corte. Sua lâmina larga e resistente é praticamente inquebrável, e a ponta em forma de cunha permitia atravessar a armadura mongol. Quando os mongóis voltaram a atacar, em 1281, a kataná foi posta à prova. Encontrando os japoneses melhor preparados, os mongóis não conseguiram conquistar territórios ao desembarcar, e tiveram que voltar aos seus navios. Um tufão varreu a frota mongol, afundando-a de vez. A este evento natural os japoneses deram o nome de kamikaze (vento divino), acreditando que os deuses haviam enviado o tufão para proteger o Japão. Em tempos de paz, mestres alfagemes tinham tempo e inclinação para fazer espadas refinadas e artísticas, mas em tempos de guerra a demanda é por quantidade, e a qualidade é colocada em plano secundário. Na Era Kamakura (1192-1333) foram criadas técnicas altamente artísticas, a ponto deste período também ser conhecido como a "era dourada" da manufatura de espadas. Foi nesse período que viveu Gorõ Nyûdõ Masamune, conhecido como "Masamune", considerado o maior mestre artesão de espadas de todos os tempos, e muitos de seus famosos e renomados discípulos, como Kunitsugu Rai, Sadamune Soshu e Yoshihiro Go. Entretanto, na Era Muromachi (1333-1573), sangrentas e contínuas guerras internas no Japão tornaram-se norma. O enfraquecimento do poder imperial deu lugar a disputas entredaimyõs (líderes feudais), uns contra os outros na disputa pelo poder sobre o país, e permitiu a ascenção dos samurais à classe dominante. Muitas espadas de boa qualidade encomendadas pelos emergentes daimyõs foram feitas nesse período, mas a necessidade de armar crescentes tropas particulares de samurais fez com que as altamente artísticas técnicas da Era Kamakura fossem abandonadas em favor de espadas utilitárias. UM NOVO PAPEL PARA A ESPADA Basicamente armados com espadas, lanças e arcos-e-flechas, os exércitos particulares dos daimyõs tinham forças equilibradas, e esse período de guerras intermináveis arrastou-se por séculos. Em 1543 um fato novo mudou tal situação: navegantes portugueses - os primeiros ocidentais a chegar ao Japão - introduziram armas de fogo no país: os arcabuzes, chamados deteppõ pelos japoneses. As armas de fogo foram rapidamente assimiladas pelos daimyõs, que as entregaram as suas fileiras deashigarus. Foi com o uso criterioso de arcabuzes que Nobunaga Oda, filho de um pequeno senhor de terras, alcançou proeminência derrotando grandes e tradicionais daimyõs, tomou a capital Kyoto e se fez shõgun (general supremo, governante de fato do Japão) em 1568. Em termos de eficiência em batalha, as armas de fogo superavam as melhores espadas e os melhores espadachins. Em 1588, Hideyoshi Toyotomi, um general de Oda, fez publicar o Kataná-gari, édito que proibiu a todos os que não fossem membros do bushi (classe guerreira) a posse ou porte da espada. A partir de então, a kataná tornou-se sinônimo de samurai, enquanto as armas de fogo só eram usadas por plebeus. Quando Ieyasu Tokugawa, outro general de Oda, unifica o país e toma o poder em 1603 assumindo o título de shõgun, inicia-se no Japão um período de paz interna, marcado por uma crescente política isolacionista do resto do mundo, e a ascenção da classe samurai ao governo e ao topo da pirâmide social. Neste período, conhecido como Era Edo (1603-1867), o governo xogunal exercido por descendentes de Tokugawa passaram a restringir a fabricação e o uso de armas de fogo, a ponto de praticamente tirá-las de circulação. Paralelamente a essas medidas, tornou-se crescente a política de valorização da kataná. O conceito da kataná como "alma do samurai" tem suas raízes no início do xogunato Tokugawa. Embora culturalmente sempre tenha havido uma reverência pela espada, a ídéia de "alma" adveio de uma necessidade do governo de dar presentes de alto valor para nobres e líderes aliados. Séculos antes, tais presentes seriam concessões de terras, mas nos tempos do xogunato as terras existentes já tinham proprietários e novos territórios, num arquipélago, eram quase impossíveis de se obter. Katanás de qualidade e de acabamento artístico passaram a ser manufaturadas com tal finalidade. Espadas antigas, de alta qualidade e feitas por artesãos renomados, passaram a ser consideradas presentes extremamente especiais, reservadas a membros da família do shõgun. Nesta época surge a arte dokantei: a habilidade de avaliar uma espada de acordo com a época que foi feita, o fabricante e a qualidade, bem como a de apreciar suas características e mínimos detalhes, como as variações de ondulação e brilho da hada, têmpera da lâmina que se assemelha visualmente ao cerne de madeira de lei. Visando se manter indefinidamente no poder, o clã Tokugawa interveio em todos os aspectos da vida na sociedade japonesa por meio de leis, impôs regras de etiqueta na corte em Edo, e patrocinou publicações para serem adotadas no ensino e treinamento dos samurais. Num período sem guerras, os samurais tornaram-se fundamentalmente funcionários públicos e burocratas, e apenas num sistema que privilegiasse a obediência cega os Tokugawa conseguiriam alguma fidelidade dos samurais e se manteriam no poder. Foi sob tais circunstâncias históricas que nasceu o Bushido (O Caminho do Guerreiro). Assim, a espada ganhou enorme função simbólica na sociedade japonesa. Símbolo da classe dominante, ela impunha às pessoas comuns mais medo que respeito pelos samurais, uma vez que estes tinham literalmente licença para matar de imediato qualquer popular que eles entendessem ter agido desrespeitosamente. Na etiqueta palaciana, o modo pelo qual se portava ou segurava a espada podia ser entendido como um ato de traição punível com a morte. Por ter apenas desembainhado sua espada no palácio do shõgun em 1701, embora diante de grave e desonesta provocação de um inimigo, Naganori Asano,daimyõ do feudo de Akõ, foi condenado a cometer seppuku(suicídio ritual). Mesmo destituídos de mestre e desonrados, ex-samurais de Asano se uniram num engenhoso plano e mataram o homem responsável pela morte de seu mestre, passando para a história como os heróis da Akõgishi (Crônicas dos Bravos de Akõ), conhecida na dramaturgia japonesa como Chûshingura (O Tesouro dos Leais Servidores), ou "Os 47 Ronins". O BANIMENTO DA KATANÁ Ao longo do século XIX, o Japão sofreu fortes pressões das potências ocidentais para abrir seus portos, até que finalmente o governo Tokugawa entrou em colapso. Após uma guerra civil entre defensores do isolacionismo xogunal e dos que queriam a restauração do poder ao imperador, com a abertura do Japão ao ocidente, adveio a chamada Era Meiji (1868-1912). Entretanto, não se mudam hábitos e valores de séculos do dia para a noite, e houve resistência dos samurais, mesmo diante da derrota na guerra civil e da irreversível modernização do país. Em 1876, o imperador Meiji baixou o édito Haitorei, que proibiu a todos indistintamente o porte de armas de fogo e e armas brancas. Proibidos de portar suas espadas, os samurais passaram à condição de cidadãos comuns, e do dia para a noite a atividade de produção de katanás foi cortada a zero. A maioria dos alfagemes foram obrigados a sobreviver de outras atividades; alguns poucos passaram a produzir tesouras, facas de cozinha e ferramentas de corte para marcenaria (áreas nas quais curiosamente o Japão até hoje é internacionalmente reconhecido por sua alta qualidade). Tamanho foi o descontentamento e decepção dos samurais com o Haitorei, que em 1877 uma rebelião liderada por Takamori Saigo, samurai que durante a guerra civil apoiou a restauração imperial e foi um dos líderes intelectuais do novo governo, reuniu milhares de samurais em Kagoshima, sul do Japão. Armadas com modernas armas de fogo, tropas imperiais sufocaram a rebelião e Saigo cometeu suicídio ritual. Posteriormente, à medida que a militarização cresceu no Japão avançando pelo século XX, a necessidade de armar soldados com espadas retomou a produção, mas a quantidade requereu fabricação industrial. As katanás "Tipo 94" e "Tipo 95", feitas para oficiais do exército e da marinha até a 2ª Guerra Mundial, pareciam-se comkatanás tradicionais, mas eram feitas de uma única placa metal industrializado, recebendo um número de série ao invés da assinatura de um artesão. Houve, felizmente, alguns indivíduos que procuraram preservar a manufatura tradicional com acabamento artístico neste período infeliz, como os membros da família Gassan. Um deles, Sadakatsu Gassan, chegou a receber o prestigioso título de "Tesouro (ou Patrimônio) Vivo Nacional", dado a artistas que contribuiram sobremaneira à identidade japonesa. Com a derrota na 2ª Guerra, e sob o governo de ocupação americano (1945-1952), as forças armadas japonesas foram dissolvidas e a produção de katanás, que devido ao conflito adquiriram a imagem de "arma maligna símbolo do inimigo", foi proibida e adotaram-se medidas para recolher todas as espadas que estivessem em posse da população, a fim de destruí-las. Diante de tal situação, um senhor chamado Junji Honma pediu uma audiência pessoal com o comandante do governo de ocupação, o general Douglas MacArthur. Neste encontro, o professor Honma apresentou ao general várias espadas japonesas de diferentes períodos históricos, e rapidamente MacArthur aprendeu a diferenciar uma espada de valor artístico de uma mera espada utilitária. Graças a esta reunião, muitas espadas foram salvas da destruição, e o general amenizou as medidas de destruição de espadas limitando-as às guntõ("espadas das forças armadas", katanás produzidas em série), permitindo que espadas de valor artístico pudessem ser preservadas e possuidas por particulares. Mesmo assim, muitaskatanás foram vendidas a soldados americanos, que as compravam por uma ninharia. Outras, como ocorre em tempos de guerra, foram roubadas. Outras foram escondidas pela população, e assim permanecem. Por esta razão, há maiskatanás hoje nos Estados Unidos que no Japão - cerca de um milhão de espadas - a maioria guntõ tiradas de soldados japoneses mortos na guerra . No pós-guerra o prof. Honma fundou a Nippon Bijutsu Tõken Hozon Kyõkai (Sociedade Para a Preservação das Espadas Artísticas do Japão), em torno da qual reuniram-se os poucos alfagemes e especialistas que hoje se dedicam a preservar a arte e a tradição das espadas japonesas. Mas boa parte do esforço da entidade está em divulgar a espada japonesa, mesmo para os japoneses. Calcula-se que não mais de 1% dos japoneses atualmente tenha visto ou empunhado uma kataná tradicional legítima. Uma série de motivos cercou a espada japonesa de rituais e etiqueta, que levam a restringir sua exibição a estranhos que não sejam seus possuidores, dificultando mais ainda que as pessoas tenham algum conhecimento do assunto e preservem sua tradição. Somente a partir da criação da Nippon Bijutsu Tõken Hozon Kyõkai, devidamente autorizada pelas forças de ocupação e reconhecida pelo governo japonês, que estudiosos e conhecedores da nihontõ puderam ter acesso a coleções particulares e realizar exposições. Atualmente fabricam-se versões industrializadas e baratas dekatanás sem corte, para mera decoração ou para prática esportiva de artes marciais. A maioria das vendidas no ocidente são feitas na China. Imitações produzidas em série, tais espadas carecem de acabamento artesanal ou artístico e são pouco resistentes, podendo facilmente quebrar-se ao receber o golpe de outra kataná. PROCESSO DE MANUFATURA DE UMA KATANÁ Antigamente, o processo de manufatura de uma espada era considerado um ato sagrado, um ritual religioso. Mestres alfagemes eram, via de regra, monges ou seguidores da seita Yamabushi (seita asceta de origem xintoísta, posteriormente absorvida por escolas budistas), ou da Shugendõ (seita derivada da Yamabushi, também conhecida como "budismo de montanha"). Antes de começar a forjar uma espada, esses artesãos realizavam ritos de purificação corporal, e abstinham-se de saquê e de sexo enquanto a espada não fosse terminada. Eles acreditavam que kamis (espíritos, deuses) os inspiravam e os acompanhavam no processo, e por isso cada espada tornava-se "moradia" de um espírito quando terminada. Após a 2ª Guerra Mundial, muito do conhecimento da fabricação tradicional artesanal da kataná se perdeu. Atualmente, por iniciativas individuais de apreciadores que se dedicam à recuperação de tais técnicas, alguns artífices retomaram a manufatura tradicional de katanás pesquisando antigos escritos e ilustrações ainda existentes sobre o assunto. Arami Meizukushi, um tratado sobre espadas escrito por Hakuryûshi (pseudônimo de Katsuhisa Kanda) em 1712, virou obra de referência. Artigos escritos por Munetsugu, mestre alfageme que viveu no século XIX e viajou por todo o Japão ensinando sua arte, gerando uma onda de produção de katanás hoje chamada de Movimento daShin-shintõ (novíssima espada japonesa), formam um evangelho para os modernos artesãos. A criação da Nippon Bijutsu Tõken Hozon Kyõkai (Sociedade Para a Preservação das Espadas Artísticas do Japão) centralizou tais esforços, e mantém a missão de divulgar e preservar espadas e técnicas tradicionais de produção. Tanto antigamente como hoje, uma kataná tradicional é basicamente feita com três instrumentos rudimentares: uma tenaz, um malho e uma bigorna. O processo baseia-se no antigo método chinês de aquecer, dobrar e achatar o metal repetidas vezes, até conseguir dar a forma que se deseja ao metal. Apesar de ser um trabalho fisicamente estressante, sujo e em ambiente quente, os ferreiros japoneses vestem-se de branco. O que dá à kataná sua especial característica de resistência - praticamente inquebrável e capaz de cortar o cano de uma metralhadora - está no uso de dois tipos de metal fundidos numa só lâmina. Primeiramente aquece-se, bate-se e molda-se o "miolo" da lâmina com um metal mais "mole", e numa segunda etapa, acrescenta-se uma capa de metal mais "duro", que ficará na parte externa. Repete-se o processo de aquecer, bater e moldar quantas vezes forem necessárias o "sanduíche" de metais de diferentes resistências, até se obter uma única lâmina. Blocos de metais de diferentes resistências são basicamente obtidos variando-se a quantidade de ferro e carbono na composição de cada bloco. A "dura" área externa da lâmina é ideal para ser polida e e afiada. O interior "mole" absorve o impacto que a lâmina recebe ao se chocar com outra área dura, evitando que ela se parta. A diferença de composição das ligas de metal é crucial na formação da curvatura da kataná. Embora o alfageme molde a lâmina enquanto o metal está quente, o formato preciso desejado pelo artesão só será obtido no súbito resfriamento final, quando ele mergulhar a lâmina em água. Antes de resfriar a lâmina, ele passa argila onde ela será afiada, e o modo pelo qual ele mergulha a lâmina na água define se a lâmina se tornará uma espada, ou se o artesão precisará recomeçar o trabalho do zero. A diferença de composição dos metais no interior e no exterior da lâmina faz com que, no resfriamento, a lâmina se contraia e produza a forma final da curvatura. Neste instante, é comum que a lâmina sofra rachaduras, ou fique com uma curvatura incorreta ou indesejada, e o trabalho seja perdido. Em média, 5 lâminas são descartadas, e na sexta tentativa é que o artesão consegue aquela que irá finalmente tornar-se uma espada, o que torna todo o processo demorado (que varia de horas a semanas). Na área que foi coberta com argila, aparecem as primeiras formas dahada (têmpera ondulada). O uso de metais de diferentes resistências na moldagem da lâmina e o modo de encurvar a lâmina são processos desenvolvidos pela metalurgia tradicional japonesa.A lâmina produzida pelo alfageme vai em seguida para outro especialista: o polidor. Usando apenas pedras para polir e afiar e as próprias mãos, o polidor exaustivamente esfrega a lâmina até obter o máximo de seu brilho e dar-lhe um corte afiado como o de uma navalha. Nas mãos dele os detalhes da hada virão à tona no máximo de seu esplendor. Finalmente, a lâmina estará pronta para ir para outro mestre: o montador. Verdadeiro artista, o montador não apenas faz o acabamento da lâmina, montando os acessórios fabricados pelo alfageme já devidamente limpos pelo polidor, como irá preparar a empunhadura com fitas de tecido resistentes habilmente trançadas e pequenas peças decorativas em bronze, osso ou marfim (algumas dessas peças são amuletos). Por fim, é feita a peça maior do montador: a saya(bainha). Feita em couro ou madeira, encerada ou laqueada, asaya é feita para acondicionar a kataná e seus acessórios com precisão, de tal modo que cada saya serve apenas para a katanápara a qual ela foi feita. Entre polimento e montagem, é comum que se demore mais 3 ou 4 semanas. Finalmente, a kataná pronta volta ao alfageme, que fará a análise final para certificar-se de que a espada atende suas expectativas. Aprovada, a espada está apta a receber a mei, a assinatura do artesão (quando a espada não é assinada, ela é chamada de mumei kataná, "espada sem assinatura"). Após um ritual para purificar e consagrar a nova espada, ela está pronta para cumprir seu destino, seja qual ele for. TIPOS DE ESPADAS JAPONESAS 
A grande maioria das espadas japonesas legítimas foi feita artesanalmente e sob encomenda, adequando-se a características e necessidades pessoais. Isso faz com que nenhuma espada seja exatamente igual a outra, e que nenhuma padronização de medidas tenha sido aplicada com absoluta precisão, mesmo quando houve produção maciça de katanás.Espadas japonesas são medidas em unidades de shaku (1 shakumede aproximadamente 30,3 centímetros), ou 10/33 metros. Também existem as medidas sun (um décimo de shaku), bu (um centésimo de shaku) e rin (um milésimo de shaku). - Chisa-kataná: é uma kataná média, medindo entre 60 e 70 cm (um pouco mais longo que a wakizashi, mas mais curto que akataná). - Daitõ: nome que se dá a qualquer espada longa, com lâmina medindo mais de 2 shaku (mais de 60 cm). - Daisho: nome que se dá ao conjunto de uma kataná com umawakizashi (duas espadas de samurai similares, diferentes apenas no comprimento). - Kataná: espada curva com ponta em forma de cunha, empunhadura longa para duas mãos e lâmina comprida com corte unilateral, medidindo em média de 60 a 70 cm, podendo ser mais longa. Ideal para rápidos golpes de corte e resistente, foi adotada pela classe guerreira (bushi). - Kodachi: é a tachi curta, com lâmina que mede mais de 1shaku e menos de 2 (entre 30 e 60 cm). - Kozuka: pequena e fina faca utilitária, feita para se encaixar entre a saya (bainha) e a tsuba (guarda, placa redonda chata e vazada para proteger as mãos) de uma kataná. Seu cabo trabalhado serve de complemento decorativo da saya. - Naginata: espada curta montada num cabo longo, lança. Também chamada de yari. - Nodachi: kataná extraordinariamente longa, chegando a medir 3 shaku (90 cm), que é carregada nas costas. É o mesmo queõdachi. - Sai: tridente com lâmina central mais longa que as lâminas laterais, usada para deter golpes de um adversário com umakataná. Dela deriva o jitte, cassetete fino de metal sem ponta viva, com um gancho no lugar do copo da empunhadura, usada por policiais na Era Edo (1603-1867). - Shotõ: nome que se dá a qualquer espada curta, com lâmina medindo mais de 1 shaku e menos de 2 (entre 30 e 60 cm). - Tachi: refinada espada pronunciadamente encurvada de ponta dupla, com corte de um só lado da lâmina. Longa (75cm em média), usada pendurada por correntes com uma cinta, esse tipo de espada foi adotada pela alta aristocracia a partir do séc. VII. - Tantõ: adaga; lâmina com menos de 1 shaku (30 cm). Usada em suicídio ritual. - Tsurugi: espada de dois gumes e ponta dupla, similar às espadas ocidentais antigas, feita no Japão na Antigüidade. Seu formato e forma de fabricação baseavam-se em modelos e técnicas da China. - Wakizashi: é a kataná curta, medindo de 30 a 60 cm. CLASSIFICAÇÃO HISTÓRICA DAS ESPADAS JAPONESAS Espadas japonesas, de acordo com a época em que foram produzidas, são classificadas nos períodos abaixo descritos. Há porém discrepâncias entre as datas exatas do período de abrangência de tais períodos, que variam de acordo com a fonte de informação ou autor. A classificação a seguir consta da "Japan Encyclopedia" de Louis Fréderic, publicada pela Universidade de Harvard. - Jokotõ: "espada antiga"; engloba espadas manufaturadas até meados da Era Heian (794 -1192), por volta do ano 900. Também é chamado de período Chokutõ. - Kotõ: "espada velha"; espadas feitas entre o ano 900 até o final da Era Muromachi (1333-1573) - Shintõ: "espada nova"; as que foram manufaturadas do início da Era Azuchi-Momoyama (1574-1603) a meados da Era Edo (1603-1867), por volta de 1804. - Shin-shintõ: "espada novíssima", ou "espada moderna"; classificação genérica para todas as espadas feitas a partir de 1804. - Fukkõtõ: "espada do ressurgimento"; especifica espadas feitas de 1804 ao fim da Era Edo (1867). - Kyûshintõ: espadas feitas do início da Era Meiji (1868-1912) a 1937, quando se inicia a intervenção na China, ano que os japoneses consideram o início da 2ª Guerra. - Shinguntõ: "espada do exército"; feitas de 1937 a 1945 (fim da 2ª Guerra Mundial) para o exército. - Kaiguntõ: "espada da marinha"; feitas de 1937 a 1945 (fim da 2ª Guerra Mundial) para a marinha. (obs.: tanto as "espadas do exército" como as "espadas da marinha" são classificadas genericamente como Guntõ, "espadas das forças armadas") PARA SABER MAIS SOBRE A ESPADA JAPONESA O site Cultura Japonesa recomenda os seguintes livros: -THE CONNOISEUR'S BOOK OF JAPANESE SWORDS, de Kokan Nagayama, publicado pela Kodansha International. -THE CRAFT OF THE JAPANESE SWORD, de Leon e Hiroko Kapp, publicado pela Kodansha Intl. -THE JAPANESE SWORD: A COMPREHENSIVE GUIDE, de Kanzan Sato, publicado pela Kodansha Intl. Os livros acima podem ser adquiridos pela internet, através dos sites da Amazon (www.amazon.com) e da Barnes & Noble (www.bn.com), ou por encomenda através da Casa Ono (casaono@uol.com.br). -A MAGIA DA ESPADA JAPONESA, de George Guimarães, publicado pela Cultrix. Difícil de encontrar disponível em lojas, mas pode ser encomendado através das livrarias Saraiva e Cultura. -JAPÃO, A HARMONIA DOS CONTRÁRIOS, de Benedicto Ferri de Barros, publicado por T.A. Queiroz. Embora esteja esgotado, o livro é suscinto e ideal para os que querem se iniciar no assunto. O autor foi o primeiro brasileiro reconhecido como especialista em espadas japonesas e membro da Nippon Bijutsu Tõken Hozon Kyõkai (Sociedade Para a Preservação das Espadas Artísticas do Japão). Disponível para consulta na biblioteca da Fundação Japão (Av. Paulista, 37 - 2º and., São Paulo/SP). Na tevê paga, o canal History Channel freqüentemente reprisa o ótimo documentário MESTRES: MASAMUNE, sobre o artesão que viveu no século XIII e que é considerado o melhor forjador de espadas do Japão de todos os tempos. É preciso consultar na grade de programação ou com a operadora quando o documentário virá ao ar novamente
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Saquê
O arroz dá origem à bebida que é tão valorizada que é oferecida aos deuses xintoístas, e também é servida em ocasiões especiais como casamento, inauguração de lojas e comemorações. Mas o saquê está presente também na mesa dos japoneses como uma bebida popular.
Existem cerca de 1600 fabricantes de saquê no Japão. Cada uma dessas empresas possui vários tipos, e como todo o ano surgem novas variedades, enquanto outras deixam de ser produzidas, será impossível provar todas elas. De qualquer forma, sabe-se que o saquê consumido atualmente, é muito diferente daquele fabricado no passado. A descoberta do fermento aumentou a graduação alcólica, e a 2ª Guerra Mundial também alterou sua receita. A escassez de arroz naquele período, forçou os fabricantes a buscarem alternativas para aumentar a fermentação utilizando menos arroz. E um decreto governamental permitiu o acréscimo de álcool puro e glicose na fórmula, o que possibilitou a utilização em menor quantidade do precioso cereal. Estima-se que 95% do saquê produzido hoje utiliza essa fórmula, contrariando os especialistas do passado que diziam que o melhor saquê era aquele feito apenas de arroz, arroz fermentado e água.
Técnica de produção
Basicamente, o saquê é uma bebida fermentada que necessita de boa água (que corresponde a 80% do produto final), e de arroz de boa qualidade.
O arroz é lavado e cozido a vapor. Depois, é misturado ao fermento, à água, e ao koji, que é o arroz fermentado separadamente, numa sala com temperatura e umidade controladas. À mistura acrescenta-se mais arroz, koji e água por três vezes dentro de cinco dias.
Essa fermentação que ocorre num grande tanque é chamado de shikomi.
A sua fermentação deve continuar por 18 a 32 dias, e findo o período, a pasta é amassada e filtrada. Depois disso, geralmente o saquê é pasteurizado para matar as bactérias e desativar enzimas que poderiam mudar o sabor e a cor do produto.
O saquê ficará descansando por seis meses, e receberá uma adição de água pura, para baixar o nível de álcool de 20 para 16%. Depois, ainda será pasteurizado novamente antes de ser embalado.
A CULTURA DO SAQUÊ
Origem do Saquê
A história de como surgiu a bebida nacional do Japão não é clara, mas sabe-se que um marco na produção do saquê foi a instalação do departamento de cervejaria no palácio imperial de Nara, então capital do Japão (710 a 792 d.C.). Depois, no período seguinte, quando a capital passou para Kyoto, o saquê é descrito como uma bebida nobre, tendo já registrado 15 variedades. É quando o saquê começou a ser consumido quente, recebendo talvez a influência da China. Já nessa época, havia cerca de 180 produtores independentes de saquê da região de Kyoto. Os templos que possuíam grandes propriedades de arroz passaram a fabricar a bebida, mais tarde fazendo parcerias com fabricantes maiores. No século 14, no meio da grande concorrência entre os produtores, surgiram algumas inovações tecnológicas, como o desenvolvimento do koji (Aspergillus Oryzae), que é a base para fermentação do arroz. A pasteurização foi introduzida baseada em observações empíricas, séculos antes de Louis Pasteur da sua explicação científica.
Principais tipos de saquê
Junmai-shu – É o saquê mais puro, com arroz, água e koji, e que não sofre acréscimo de álcool. O arroz é “polido” de forma que perde a parte externa, conservando menos de 70% do seu volume original.
Honjozo-shu – Tem pequena quantidade de álcool etílico destilado, o que melhora o sabor, tornando o saquê mais suave. O arroz recebe o mesmo tratamento de Junmai-shu.
Ginjo-shu – O arroz é “polido” para conservar apenas 60% do seu formato original. Isso diminui a gordura e as proteínas. Além disso, esse saquê é fermentado a uma temperatura baixa por muito tempo.
Daiginjo-shu – Através do polimento, o arroz perde pelo menos 50% de seu volume original, chegando em alguns casos a perder até 65%. É um tipo de saquê que exige muito trabalho em cada nível do processo.
Namazakê – É o saquê que não é pasteurizado, e deve ser guardado na geladeira.
Nigori-zakê – Não é filtrado.
No Japão, o termo saquê é mais abrangente e pode significar qualquer bebida alcoólica, distinguindo-se freqüentemente a bebida japonesa como “nihonshu” (literalmente saquê do Japão) ou “seishu”.
Os saquês mais comuns que não estão na nesta lista são chamados de futsuu-shu, enquanto aqueles produzidos regionalmente em pequenas escala, de jizake.
O arroz
Ingrediente básico do saquê, o arroz é considerado um superalimento, sendo consumido por mais da metade da população mundial. Esse cereal é cultivado há mais de 5 mil anos, e estima-se que existam hoje 2.500 variedades. A maioria das espécies é nativa da Índia, mas alguns tipos surgiram na África. Encontrando o clima ideal na China, passou a ser cultivado em larga escala. O Japão importou a técnica do plantio da China entre os séculos II e III a.C., e com isso mudou profundamente a sua vida social, política e econômica dos aldeões. Como o cultivo do arroz exigia um trabalho coletivo, surgiu a divisão de trabalho e conseqüentemente a divisão por classes sociais.
Durante muito tempo, o arroz foi utilizado como dinheiro, calculando-se o valor da propriedade pelo volume de arroz que poderia produzir.
Ainda hoje o Japão considera o arroz seu alimento mais importante, e países como os Estados Unidos sempre criticam o protecionismo do mercado japonês, citando como o exemplo o arroz, que tem cotas que limitam a importação. Os defensores dessa idéia argumentam que o próprio povo japonês paga muito caro pelo arroz produzido internamente, enquanto o mercado externo oferece a um preço menor.
Kimono
"Vestuário" em japonês fala-se ifuku. Cristiane A. Sato, colaboradora do CULTURA JAPONESA, aborda neste artigo a história e a evolução do vestuário tradicional no Japão, e de como foi sempre fazendo parte da moda que o kimono não apenas tornou-se reflexo da cultura, como mantém-se vivo no cotidiano dos japoneses há mais de 2 mil anos.
Observação: neste artigo adotou-se a grafia Hepburn kimono, embora também seja considerada correta a grafia "quimono", uma vez que expressão que já se encontra incorporada ao português e consta dos dicionários da língua portuguesa.
RESPOSTA A UMA PERGUNTA
Kimono em japonês significa literalmente "coisa de vestir". Fora do Japão essa expressão designa genericamente uma variada gama de peças e que no conjunto formam um visual considerado típico ou tradicional japonês, mas também é sinônimo da peça principal. No Japão, a peça principal que nós chamamos de kimono é chamada de kosode.
O atual significado da palavra de kimono tem origem no século XVI, quando navegantes ocidentais - principalmente portugueses, espanhóis e holandeses - chegaram ao arquipélago. Nos primeiros contatos com os japoneses, sem conhecerem os idiomas de uns e de outros, os ocidentais perguntavam com mímicas e gestos qual era o nome das roupas de seda que viam os japoneses usarem, e os japoneses respondiam kimono. Era como alguém perguntando a um japonês: "Como se chama sua roupa?" E o japonês respondia: "Roupa". Foi assim que a palavra kimono tornou-se designação moderna do vestuário tradicional japonês.
No Japão o vestuário divide-se em duas grandes categorias: wafuku(vestimenta japonesa ou de estilo japonês) e yofuku (vestimenta ocidental ou de estilo ocidental).
A história do vestuário japonês é em grande parte a história da evolução do kosode, e de como os japoneses adaptaram a seus gostos e necessidades estilos e a produção de tecidos vindos do exterior.
NA ANTIGÜIDADE
Não se sabe ao certo como eram as roupas usadas na Pré-história japonesa (Era Jomon - 10 mil a.C. a 300 a.C.), mas pesquisas arqueológicas indicam que provavelmente as pessoas usavam túnicas de pele ou de palha. Na Era Yayoi (300 a.C. a 300 d.C.) a sericultura e técnicas têxteis chegaram ao Japão através da China e da Coréia.
 | O Príncipe Shotoku e dois de seu filhos: penteados, túnicas e acessórios de forte inspiração chinesa na corte imperial japonesa.
Agência da Família Imperial, Tóquio, Japão |
Dos séculos IV a IX, a cultura e a corte imperial no Japão receberam forte influência da China. Influenciado pela recém-importada religião budista e pelo sistema de governo da corte Sui chinesa, o regente japonês Príncipe Shotoku (574-622) adotou regras de vestuário estilo chinês na corte japonesa. Posteriormente, com o advento do Código Taiho (701) e do Código Yoro (718, eficaz só a partir de 757), as roupas na corte mudaram seguindo o sistema usado na corte Tang chinesa, e foram divididas em roupas cerimoniais, roupas de corte, de roupas de trabalho. Foi nesse período que passou-se a usar no Japão os primeiros kimonos com a característica gola em "V", ainda similares aos usados na China.
OPULÊNCIA TÊXTIL
Na Era Heian (794-1185) o contato oficial com a China foi suspenso pela corte imperial, e esse afastamento permitiu que formas de expressão cultural genuinamente japonesas florescessem nesse período. No vestuário isso se refletiu em um novo estilo, mais simples no corte, mas mais elaborado em camadas e sofisticação têxtil.
Os homens da aristocracia passaram a usar o sokutai, um conjunto formal composto por uma ampla saia-calça chamada oguchi, cuja aparência recheada e firme se deve a várias camadas de longos kimonos por baixo chamados ho, e uma enorme túnica bordada, de mangas longas e amplíssimas e uma cauda de cerca de 5 metros. Uma tabuleta de madeira chamada shaku e uma espada cerimonial longa, a tachi, eram complementos obrigatórios. Os homens ainda deviam usar um penteado chamado kammuri - composto basicamente por um chapeuzinho sólido preto e uma ou mais fitas de seda engomadas na vertical, tudo preso ao cabelo. De acordo com variações (haviam 5 delas, referentes a quantidades de fita, se ela enrolada, se ela pendia do chapéu, etc), sabia-se o status ou grau de importância do indivíduo na corte. Uma versão simplificada do sokutai, o ikan, é usada atualmente pelos sacerdotes xintoístas.
As damas da corte usavam o igualmente amplo e impressionantekaraginumo, mais conhecido pelo nome adotado após o século XVI jûni-hitoe, ou "as doze molduras da pessoa". Trata-se de um conjunto de nada menos que doze kimonos da mais fina e luxuosa seda sobrepostos chamados de uchiki, cada um levemente mais curto que o anterior, de modo a deixar golas, mangas e barras aparecendo em discretas camadas, criando um efeito multicolorido de impacto. O último uchiki, que serve de sobretudo, era bordado e era freqüentemente complementado por um cinto amarrado à frente em forma de laço no mesmo tecido, e uma cauda que podia ser em outra cor ou textura. Um enorme leque decorado com cordões de seda e um tipo de carteira de seda, encaixada na gola entre a 3ª e a 4ª camada, eram complementos obrigatórios. As mulheres não cortavam os cabelos: eram usados longuíssimos, lisos, soltos sobre as costas ou simplesmente amarrados um pouco abaixo da altura do pescoço, freqüentemente com as pontas arrastando no chão sobre a cauda do jûni-hitoe.
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Reprodução moderna de um jûni-hitoe, usado na Era Heian (794-1185). TNM Image Arquives |
ESTILO SAMURAI
Na Era Kamakura (1185-1333), o advento do xogunato e o declínio do poder e do prestígio da corte imperial trouxe ao vestuário novos estilos adotados pela ascendente classe dos samurais. Na corte imperial e do xogum os grandes senhores e oficiais mais altos ainda usavam o formalsokutai, mas o kariginu, antes um traje de caça informal da aristocracia - um tipo de capa engomada com gola arredondada, longas e amplas mangas que podiam ser decoradas com cordões - foi amplamente adotado pelos senhores feudais e samurais.
As mulheres passaram a usar uma combinação de uchikis com umhakama, saia-calça ampla com placa de sustentação nas costas, usada também por homens. Com o tempo, uso do uchiki deu lugar ao kosode, que comparado ao uchiki é menos amplo, tem mangas mais curtas, e cuja forma aproxima-se mais dos kimonos modernos. A amarra para fechar o kosode era feito com faixas estreitas, na altura da cintura ou pouco abaixo da barriga.
 | Na Era Muromachi (1333-1568) acrescentou-se ouchikake - também chamado de kaidori- um kimono com a mesma forma mas um pouco mais amplo que o kosode,que serve de sobretudo e que podia ou não ter barra almofadada. Okosode comuchikake era o traje formal feminino das altas classes. Hoje em dia o uchikakefaz parte do traje de noiva tradicional. |
Uchikake usado em peças Nô, confeccionado no século XVIII -National Museum, Tokyo
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Na Era Azuchi-Momoyama (1568-1600), período marcado por constantes guerras pelo poder entre os generais Hideyoshi Toyotomi e Nobunaga Oda, os samurais continuaram a usar coloridos e ricos conjuntos de peças superiores com calças, chamados de kamishimo - um kimono masculino com uma saia-calça ampla, longa e estruturada chamadanagabakama, tudo feito no mesmo tecido, às vezes complementado por uma jaqueta sem mangas, com ombros alargados e estruturados em tecido diferente. O kamishimo continuou sendo usado até a segunda metade do século XIX.
GOSTOS BURGUESES
Durante os 250 anos de paz interna do xogunato Tokugawa (1600-1868), os chõnin (burgueses, ricos comerciantes) deram apoio a novas formas de expressão artística e cultural que não mais derivavam da corte imperial ou da corte do xogum. O teatro kabuki e os "bairros do prazer" nas cidades de Edo (Tóquio), Osaka e Kyoto ditavam moda. O kosode, que se tornou o traje básico para homens e mulheres, passou a ser mais decorado, seja pelo desenvolvimento de técnicas de tingimento como yuzen e shibori, seja por outras técnicas artesanais de decoração têxtil com pintura, bordados e desenhos desenvolvidos no tear. Os obis femininos, faixas largas e compridas usadas para fechar os kosodes, feitos em brocado com fios de ouro e prata, ganharam ênfase na moda e viraram símbolos de riqueza.
A haori, uma jaqueta com mangas amplas e gola estreita feita de seda, na qual bordava-se ou imprimia-se símbolos que representavam a atividade profissional da pessoa ou a insíginia (kamon, ou escudo circular) do chefe da família, passou a ser amplamente usado. Uma versão popular, de mangas mais estreitas, feita em tecido mais simples e resistente, passou a ser usada por trabalhadores e funcionários de estabelecimentos comerciais. Chamada de happi, essa peça ainda é muito usada.
Algumas peças surgidas no início desse período refletem influência portuguesa. A kappa (capa longa de corte circular, com ou sem gola, sem mangas, usada como sobretudo) deriva das capas usadas pelos navegantes portugueses, assim como a jûban (camisa com forma de kimono curta usada como roupa de baixo) deriva do "gibão" português.
 | No século XIX, o xogunato refez as normas de vestuário militar, e tornou okosode, o hakama com barra na altura do tornozelo e o haori o uniforme-padrão dos samurais. O daisho(conjunto de duaskatanás - espadas curvas - uma longa e outra curta) e o penteado chonmage - a parte acima da testa é raspada, com os cabelos, compridos na altura dos ombros, presos em forma de um coque na parte superior atrás da cabeça - eram de uso obrigatório.O conjunto kosode,hakama e haori é hoje o traje do noivo em casamentos tradicionais. |
| Seibunkasha |
TEMPOS MODERNOS
A partir da Restauração Meiji (1868), os japoneses lentamente adotaram o vestuário ocidental. O processo começou por decreto: o governo determinou que todos os funcionários públicos, militares e civis, passassem a usar roupas ou uniformes à ocidental. Ao final da 1ª Guerra Mundial (1918), quase todos os homens já usavam ternos, camisas, calças e sapatos de couro.
As mulheres adotaram mais lentamente os estilos ocidentais. No início apenas a aristocracia usava vestidos de gala, importados da Europa, usados em algumas ocasiões formais na corte Meiji e em bailes do suntuoso salão Rokumeikan (de 1883 a 1889) em Tóquio. A partir da 1ª Guerra Mundial, mulheres instruídas e com profissões urbanas passaram a usar diariamente roupas ocidentais, mas só após a 2ª Guerra Mundial (1945) foi que o vestuário ocidental passou a ser a regra em todas as classes sociais, homens mulheres e crianças.
 | Atualmente a maioria das mulheres usamkimonos apenas em ocasiões especiais, como casamentos e matsuris (festivais populares ou tradicionais). Homens usam kimonos ainda mais raramente. O yukata, kimono leve de algodão estampado, típico de verão, ainda é bastante usado por homens e mulheres nos festivais de verão e em resorts, à ocidental ou estilo japonês. Desde a virada do milênio, entretanto, mais pessoas têm resgatado o uso do kimono no cotidiano, gerando um movimento informalmente apelidado de fashion kimono - kimonos de forma tradicional mas com estampas modernas, obis (faixas de amarrar na cintura) que não amarrotam ou com nós prontos, que agradam a um público mais jovem.
Fashion kimono: temas abstratos, geométricos e estamparia moderna e o insubstituível toque da seda fizeram as japonesas voltarem a usar kimonos no século XXI - Saita Mook, Shiba Park-sha |
TIPOS DE KIMONOS
Parece simples, mas não é. Dependendo de estampas e cores, oskimonos seguem uma etiqueta, uma hierarquia cujo uso depende da ocasião, da estação do ano, do sexo, do grau de parentesco ou do estado civil da pessoa que o usa. Veja a seguir os principais tipos de kimono:
Kurotomesode - "mangas curtas preto",kimono preto com profusa decoração das coxas para baixo e com 5 kamons(escudos de família) impressos ou bordados em branco nas mangas, peito e costas. Usado com um obi de brocado dourado, é o kimono mais formal das mulheres casadas, geralmente usado pelas mães do noivo e da noiva num casamento.
Irotomesode - "mangas curtas colorido",kimono liso de uma só cor, geralmente em tons pastéis, com profusa decoração das coxas para baixo e com 5 kamons(escudos de família) impressos ou bordados em branco nas mangas, peito e costas. Usado com um obi de brocado dourado, é um kimono menos formal que okurotomesode, e é usado por mulheres casadas que são parentes próximas dos noivo e da noiva num casamento. | 
Kurotomesode
Sekaibunkasha |
Furisode - "mangas que balançam", kosode feminino cujas mangas possuem 70 cm a 90 cm de comprimento. É o kimono formal das moças solteiras, ricamente estampado, fechado com obi em brocado multicolorido e brilhante amarrado em grandes laços nas costas. É geralmente usado no Seijin Shiki (Cerimônia da Maturidade, no mês de janeiro no ano em que a moça completa 20 anos) e pelas moças solteiras aparentadas da noiva nas cerimônias e recepções de casamento.
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Jovem em furisode. Acima, detalhe do laço do obi nas costas. Akemi Moriguchi, arquivo pessoal. |
Houmongi - "traje de visita", kimono liso de uma só cor, geralmente em tons pastéis, com profusa decoração em um dos ombros e uma das mangas, e das coxas para baixo, sem kamons (escudos de família). Considerado um pouco menos formal que o irotomesode, em cerimônias de casamento é usado por mulheres casadas ou solteiras, que geralmente são amigas da noiva. O houmongi também pode ser usado em festas formais ou recepções.
Tsukesage - Comparado ao houmongi, o tsukesage tem uma decoração um pouco mais discreta e é considerado menos formal que o houmongi. Dos kimonos que podem ser usados diariamente por casadas e solteiras, é o mais requintado.
Iromuji - kimono de uma só cor, que pode ter textura mas sem decoração em outra cor, usado principalmente em Cerimônias do Chá. Pode ter um pequeno bordado decorativo ou um kamon (escudo de família) nas costas. É um kosode semi-formal, considerado elegante para uso diário.
Komon - "estampa pequena", kimono feito com seda estampada com desenhos pequenos repetidos por toda a peça. Considerado casual, pode ser usado para sair pela cidade ou para jantar em um restaurante. Pode ser usado por casadas e solteiras.
Tomesode - "mangas encurtadas", kosode feminino de seda, forrado em seda de cor diferente, cujas mangas possuem 50 cm a 70 cm de comprimento. A expressão deriva do costume de que quando as mulheres se casavam elas passavam a usar kimonos com as mangas curtas - ou cortavam as mangas dos kimonos - como símbolo de fidelidade ao marido. A maior parte dos kosode usados por mulheres são desse tipo.
 | Yukata - kimono informal de algodão estampado, sem forro. Mulheres usam os de grandes estampas, geralmente de flores, com obi largo, e os homens usam os de pequenas estampas, com obi estreito.
O yukata é mais usado em matsuris (festivais), mas também pode ser usado diariamente em casa.
Ryokans (hotéis ou pousadas tradicionais) eonsens (resorts com termas) costumam disponibilizar yukatas para todos os hóspedes.
Homem em Yukata.
Sekaibunkasha |
KIMONOS CERIMONIAIS INFANTIS
Shichi-go-san (7-5-3) é o nome de uma cerimônia xintoísta na qual as meninas e 7 e 3 anos, e os meninos de 5 anos de idade, vestem kimonos especiais e visitam o templo para pedir saúde e boa sorte em seu crescimento. As meninas são vestidas como mini-gueixas, destacando-se a cor vermelha, e os meninos usam uma versão miniatura de um traje formal completo de samurai. A haori dos meninos são estampadas com imagens de samurais famosos (normalmente a figura de Minamoto no Yoshitsune, também chamado de Ushiwakamaru, herói do Heike Monogatari - O Conto de Heike).
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Menina com okimono comemorati-
vo de 7 anos - Sekai- bunkasha. | Menino com o kimonocomemorativo de 5anos - Seikaibunkasha. | Menina com o kimonocomemorativo de 3 anos - Sekaibunkasha. |
DETALHES
Eis a seguir um vocabulário sobre aspectos e acessórios de kimonos:
Geta - sandália de madeira, geralmente usada por homens e mulheres com yukata.
Kanzashi - nome que designa uma série de ornamentos para o cabelo usados com kimono. Podem ter a forma de espetos com terminais esféricos ou diversos formatos decorativos, flores ou de pentes. São feitos em madeira laqueada, tecido, jade, casco de tartaruga, prata, etc.
Obi - faixa usada amarrada à cintura para manter o kimono fechado. Varia em largura e comprimento. Homens em geral usam obis de trama larga e firme, em cores discretas, estreitos, amarrando com um nó às costas circundando a linha abaixo da barriga. Mulheres em geral usam obis em brocado largos, com desenhos feitos no tear, ao redor do tronco e amarrados às costas. Cores e desenhos variam: os mais brilhantes e intrincados são usados em ocasiões formais.
Obijime - cordão decorativo em fio de seda usado para dar acabamento e firmeza à amarra do obi. Usado por mulheres.
Tabi - meia de algodão na altura dos tornozelos ou metade das canelas, com divisão para o dedão do pé, com abertura voltada para o lado entre as pernas.
Waraji - sandálias de palha trançada. Bastante comum décadas atrás, atualmente são mais usadas por monges.
Zõri - sandália com acabamento em tecido, couro ou plástico. Os femininos são estreitos e possuem a ponta mais ovalada, e os masculinos são mais largos, retangulares, com as extremidades arredondadas.
Dizô Matsuri
 | | O festival de Dizô é pouco comum no Japão e inédito no Brasil. Só o Nippon Country Club realiza esse evento, apesar do Dizô ser uma das imagens mais populares do budismo. Esculturas representando Dizô, geralmente um monge sorridente de baixa estatura, são vistas por todo o território japonês, até em ruelas e vilas com pouquíssimo movimento. No passado, como a viagem era muito perigosa, pois incluía a travessia de matas e muitos se perdiam e morriam diante do clima |
severo, os moradores da região colocavam estátuas de Dizô pedindo proteção aos viajantes e também às crianças. As oferendas (geralmente o moti – bolinho de arroz), que os moradores até hoje colocam, serviam de alimento emergencial para os que passavam por lá.
Simbolizando essas oferendas que salvavam vidas, durante o Dizô-Matsuri é realizado o Moti-Maki, o ato da distribuição de bolinhos de arroz que foram abençoados pelo Dizô.
O Nippon realiza o Dizô-Matsuri desde 1968, mas a estátua de Dizô é mais antiga que o próprio Nippon. Ela foi confeccionada em 1948 pelo escultor Izukawa (de Pinheiros), a pedido de Tsunaichi Miyoshi, que iniciou o festival em homenagem a Dizô, em sua propriedade, no bairro de Utinga, em Santo André. Lá permaneceu até 1965, quando foi transferida para o Nippon. O Dizô Matsuri em Santo André teve grande importância para as famílias japonesas, pois na insegurança do pós-guerra, sem esperança de retornarem ao Japão, a participação naquele festival e a visita ao jardim japonês de Miyoshi tinha valor significativo. A transferência do Dizô para o Nippon se deu por causa da desapropriação do terreno para a passagem do oleoduto da Petrobras. O detalhe é que todas as pedras do jardim japonês de Miyoshi também acompanharam o Dizô. Em agosto de 2004 foi realizado o maior festival do Dizô, que ganhou muitas atrações e recebeu o nome de NipponFest. O evento bateu todos os recordes de público do Nippon Country Club, ao reunir, num único domingo, 11.024 pessoas.
Yosakoi Soran
A dança que na última década do século XX tornou-se verdadeira “febre” no arquipélago é resultado da união de duas tradições com pitadas de modernidade.
Em 1991, alguns jovens de Hokkaido, ilha ao norte do arquipélago, foram passar um feriado na província de Kochi e lá conheceram o Yosakoi Matsuri, festival folclórico que dura quatro dias em agosto, no qual multidões participam de uma dança chamada Yosakoi Naruko. As pessoas desfilam dançando ao som de uma música chamada Yosakoi Bushi, que tem a seguinte letra:
Yochorre, yochorre, yochorre, yochorre
Tosa no Kochi Harimayabashi de
Bõsan kanzashi kau o mita
Yosakoi, Yosakoi
Hei, hei...
Venha cá, venha cá,
Na ponte Harimaya, na cidade de Tosa em Kochi
Vi um monge comprar um enfeite para cabelos
Venha à noite, venha à noite
Hei, hei...
Encantados com o ritmo e os passos do Yosakoi Naruko, os jovens de Hokkaido decidiram fundí-lo com o Soran Bushi, outra dança tradicional japonesa, típica de Hokkaido.
O Soran Bushi é uma dança enérgica, que homenageia os pescadores do norte do Japão, com movimentos inspirados na atividade pesqueira. Por sua vez, a música do Soran Bushi não tem nada de romântica, e sua letra exorta os dançarinos-pescadores à luta contra o mar e os elementos para ganhar o pão de cada dia de forma quase heróica, com expressões do tipo “amarre o hachimaki e vá” (o hachimaki é um lenço que é amarrado ao redor da testa quando a pessoa vai fazer um grande esforço - não apenas serve para reter o suor, como também simboliza o próprio esforço, físico e mental). O resultado desta fusão foi o Yosakoi Soran, uma dança vibrante e envolvente, que exige força e velocidade de seus participantes.
À primeira vista, o observador desinformado pode pensar que o Yosakoi Soran é uma dança folclórica antiga, mas as coreografias e as músicas usadas na dança, apesar de se basearem nas formas tradicionais do Yosakoi Bushi e do Soran Bushi, ganharam arranjos novos, misturando instrumentos típicos japoneses a guitarras, baterias e teclado, com compasso mais acelerado e ritmos contemporâneos, como de pop, de rock e até de hip-hop. Em algumas versões destas músicas, o shamisen (cítara de três cordas tradicional japonesa) é tocado como se fosse uma guitarra ocidental, e há também versões que acrescentaram arranjos e instrumentos típicos de Okinawa, ampliando o leque de variações das mesmas músicas e canções. Tal atualização de duas tradições fundidas numa só dança agradou os jovens no Japão, e contrariando qualquer expectativa, virou mania e deu vida nova a antigas manifestações de cultura popular. A primeira apresentação de Yosakoi Soran ocorreu em 1992 em Hokkaido, e rapidamente conquistou adeptos por todo o país. Embora atualmente o Yosakoi Soran seja dançado por inúmeros grupos jovens por todo o Japão, um festival-concurso é realizado anualmente em Hokkaido, com cerca de 375 grupos e 30 mil participantes.
No Brasil, o Yosakoi Soran foi introduzido sob a iniciativa do empresário Hideaki Iijima, da Soho Cabeleireiros, que encabeça o Festival Yosakoi Soran anual em São Paulo.
O 9º Festival Yosakoi Soran foi realizado no dia 31 de julho de 2011, no auditório do Via Funchal na Vila Olímpia, em São Paulo.
16 grupos competiram em duas categorias: juvenil (4 grupos) e adulto (12 grupos). A classificação foi: Juvenil - 1º) Tomodachi de Birigui, 2º) Escola Japonesa de Biritiba Mirim, 3º) Heisei Naruko Kids. Adulto - 1º Saikyou de Maringá, 2º) Mugen Kyodai de Paranavaí, 3º) Wakaba de Curitiba. O prêmio máximo Grand Prix ficou para o grupo Sansey de Londrina, que se tornou hexacampeão.
Matéria completa e fotos exclusivas sobre o 9º Festival Yosakoi Soran estão no link:
http://www.japop.com.br/9yosakoi.html
Hanamatsuri
O festival das flores, Hanamatsuri, é realizado desde 1966 no bairro da Liberdade. É uma promoção conjunta da Federação das Seitas Budistas no Brasil (entidade que congrega as seis tradicionais seitas budistas) com a ACAL – Associação Cultural e Assistencial da Liberdade.
É realizada anualmente no mês de abril e celebra a data do nascimento do Buda Xaquiamuni. A imagem do pequeno Buda é exposto num altar decorado com flores, e as pessoas dão um banho nele com o chá doce.
No final do evento, um cortejo desfila pela rua Galvão Bueno, acompanhando um grande elefante branco sobre o qual está a imagem do pequeno Buda. O elefante branco teria aparecido num sonho da rainha, mãe de Xaquiamuni, anunciando o nascimento de Buda.
A curiosidade está no elefante branco. Ela foi confeccionada pelo escultor Olyntho Tahara, a pedido da Abrademi – Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações.
O texto abaixo foi escrito pelo monge Francisco Handa para a revista do 39º Hanamatsuri, que foi realizado de 4 a 9 de abril de 2005. Saiba mais sobre budismo em "religião".
Hanamatsuri
Segundo reza a tradição, o Buda Shakyamuni nasceu no quarto mês quando no céu surgia a lua cheia de primavera. Deslocando-se para o país de Koliya, sua terra natal, a rainha Mayadevi sentiu as pontadas do parto quando atravessava o Jardim Lumbini. Foi quando pediu para repousar, pois a viagem tinha sido árdua. Ao dobrar o corpo para deitar-se viu adiante uma flor que despontava num ramo. Foi neste instante que as contrações aumentaram e deu nascimento a um menino. Uma chuva de pétalas e néctar caiu naquele momento e dos cantos da terra se fez soar um brado anunàando a boa nova. Chamaram a criança de Sidharta.
Assim, repetindo o acontecimento os seguidores do budismo do mundo todo comemoram o Vesak, no Japão conhecido por Festa das Flores ou simplesmente Hanamatsuri. Ocasião de grande festividade, em que num altar decorado com tIores a imagem do Buda Menino é devidamente instalado. Aqueles que pretendem homenageá-lo, dirigem-se até o altar, e numa concha recolhem chá adocicado que é derramado sobre a cabeça do Buda. Repetem este movimento por três vezes, fazendo pedidos como a realização de sonhos; pedem saúde e proteção. Esta versão popular, muitas vezes é substituído por um motivo filosófico: ao se banhar o Buda, estamos banhando a nós próprios.
Assim, purificamos o nosso coração e podemos avaliar a nossa conduta perante a vida.
Uma cerimônia acontece em 8 de abril, dia do nascimento (ou data próxima), com os representantes de inúmeras tradições budistas, saindo em cortejo pelas ruas do Bairro da Liberdade - em se tratando do município de São Paulo.
Então, um andor com a imagem do Buda Menino é posto nas costas de um elefante branco. Crianças vestidas como os pequenos do Nepal, onde Buda nasceu, simulam puxar o carro em que vai o elefante. Atrás os monges de diversas tradições reúnem-se para acompanhar o cortejo.
Bem termina a cerimônia do nascimento de Buda, a população que veio prestigiar recebe de brinde ramalhetes.
Encerra-se com grande entusiasmo, principalmente com a oportunidade de comemorar o nascimento do Ser lluminado.
Não apenas daquele, mas de sua natureza em todos os seres vivos.
Moti Tsuki
No dia 31 de dezembro é realizado o Festival do Moti Tsuki na Liberdade. O bolinho de arroz (moti) é socado no pilão de madeira e depois é distribuído para os presentes. Várias pessoas se revezam no trabalho de socagem do moti, que simboliza o esforço humano para se ter boa sorte no ano que está chegando.
Tanabata Matsuri
O festival de Tanabata tem origem numa lenda japonesa. Orihime era a filha de um poderoso deus do reino celestial. Certo dia, estando diante de seu tear, viu passar um rapaz conduzindo um boi, e por ele se apaixonou. O pai consentiu o casamento dos dois jovens. Porém, casados e totalmente dominados pela paixão, ambos descuidaram-se de seus afazeres normais. Foi então que, o pai indignado, ordenou que eles vivessem separados, um de cada lado da Via Láctea. Ele permitiria que, entretanto, o casal se reencontrasse apenas uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês, se cumprisse à ordem do pai, que era atender os pedidos vindos da Terra. Segundo a mitologia japonesa, Orihime é representada pela estrela Vega, e o rapaz, a estrela Altair, do lado oposto da galáxia, que realmente só se encontram uma vez por ano.
O festival teve início há mais de 1.150 anos, na Corte Imperial, e a data tornou-se feriado nacional em 1603.
No Brasil, o Festival das Estrelas / Tanabata Matsuri é realizado desde 1979 pela ACAL – Associação Cultural e Assistencial da Liberdade e pela Associação da Província de Miyagi, na praça da Liberdade, em São Paulo, sempre no mês de julho. No Japão, o festival de Tanabata é realizado em várias cidades, mas o de Miyagui é o mais tradicional. Lá se realiza em agosto, para aproveitar as férias de verão das escolas.
No Tanabata, as ruas do bairro e a praça da Liberdade são decoradas com grandes ramos de bambu que recebem a ornamentação de enfeites coloridos de papel que simbolizam as estrelas. Nesses bambus são pendurados os tanzaku, pequenos pedaços também coloridos de papel onde as pessoas colocam seus pedidos.
Toyo Matsuri
Um dos festivais de rua mais importantes da cidade de São Paulo, é realizado no primeiro final de semana de dezembro, na Praça da Liberdade. Trata-se do Toyo Matsuri, o festival oriental, com shows de taikô, música variada e dança típica. Há alguns anos, passou-se a adotar o “nobori”, uma bandeira comprida típica japonesa, para enfeitar as ruas. A promoção é da ACAL.
GUEIXA
O recente sucesso do romance best seller"Memórias de uma Gueixa" de Arthur Golden e do filme baseado no livro causou muitos pedidos em nosso site por informações a respeito do assunto. Cristiane A. Sato, consultora do CULTURA JAPONESA, apresenta a seguir uma introdução a um dos aspectos mais fascinantes da sociedade japonesa: a gueixa.Nota Sobre a Grafia - no texto a seguir, a regra será o uso da grafia em português GUEIXA. Mas eventualmente, em alguns nomes compostos, adotamos a grafia do método Hepburn, internacionalmente usado na romanização de palavras em japonês: GEISHA. Independentemente da grafia, ressaltamos aos leitores que a pronúncia correta em ambos os casos é "gueixa".
GUEIXA, MUSA DO MUNDO FLUTUANTE
Muito se fala e se discute, principalmente no ocidente, sobre a figura e o papel da gueixa na sociedade japonesa. Na prática, poucos ocidentais, e mesmo japoneses, têm efetivamente contato com uma gueixa. Em público, elas só aparecem em poucas ocasiões, como no Jidai Matsuri (Festival das Eras), e na temporada de danças tradicionais Kamogawa Odori (Danças do Rio Kamo) que ocorrem em outubro, em Kyoto. Fora tais ocasiões, alguns sortudos turistas conseguem vê-las andando pelas ruas, nas raras ocasiões em que elas saem para ter aulas de dança, shamisen (cítara de três cordas tradicional) ouikebana (arranjo floral), ou a caminho de um restaurante para entreter algum empresário ansioso em impressionar seus convidados. Ser servido ou entretido por uma gueixa, mesmo entre os japoneses, é privilégio de poucos.
O fascínio pelo assunto no ocidente começou através de artigos de jornais e da arte, do teatro e da literatura a partir da segunda metade do século XIX, quando o Japão passou a abrir seus portos às potências ocidentais, terminando um isolamento comercial e cultural que durou mais de 200 anos. As gravurasukiyo-e (retratos do mundo flutante) tornaram-se bastante populares e apreciadas na Europa, em especial por artistas plásticos na França. Vendidas em folhas avulsas ou até encadernadas na forma de um livro sanfonado, tais gravuras freqüentemente retratavam gueixas, havendo até artistas que se especializaram em desenhá-las, como Kiyonaga e Utamaro, formando um "estilo" dentro do ukiyo-e chamado de bijin-ga(desenho de mulher bela). Relatos de viajantes e correspondentes publicados em jornais de um Japão tão diferente e exótico eram lidos com grande curiosidade.
Em 1904, o compositor italiano Giacomo Puccini criou a ópera "Madame Butterfly". Inspirada num caso verídico, a ópera conta a trágica história de uma gueixa, Cho-cho ("borboleta" em japonês), que se apaixona por Pinkerton, oficial americano em missão no Japão. Acreditando ser esposa de Pinkerton, ela tem um filho mestiço e passa a sofrer o preconceito dos japoneses. Ele é chamado de volta aos Estados Unidos, e acreditando nos democráticos valores com que seu amado descrevia o ocidente, Cho-cho aguarda seu regresso ao Japão na esperança de ir viver com ele e seu filho na América. Mas Pinkerton volta casado com uma americana e deixa Cho-cho, que acaba se matando. Até hoje extremamente popular, "Madame Butterfly" não apenas tornou Cho-cho a gueixa ficcional mais famosa do mundo, como também serviu de inspiração para filmes e outra peça de sucesso 80 anos depois: o musical "Miss Saigon", de Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg.
A ficção e diferenças culturais fizeram com que a idéia que o ocidente tem das gueixas seja distorcida, pouco correspondendo com a realidade. Muitos, principalmente os incultos, acham que uma gueixa nada mais é do que uma exótica prostituta de luxo - algo que choca os japoneses, que as consideram refinadas guardiãs das artes tradicionais. Para os japoneses, achar ou tratar uma gueixa como se ela fosse uma mera garota de programa é uma atitude que revela não só falta de critério, mas de cultura e "berço" de quem assim age. Na sociedade japonesa, a gueixa é objeto de admiração e respeito. Elas dão status aos lugares que vão e às pessoas com quem se relacionam - um status que é mais ligado à tradição que à moda.
Entender o que é, ou o que faz uma gueixa ser uma gueixa, é difícil para os que pouco conhecem o Japão, a história, a cultura e a sociedade do país. A existência da gueixa só pode ser compreendida no contexto japonês, assim como ela é produto do que o Japão foi e é.
FUI ATENDIDA POR UMA GUEIXA
Para muitos, o fascínio pelas gueixas começa através da mídia ou da ficção. Meu particular interesse pelo assunto começou com uma situação atípica, mas que serve para ilustrar como é um dia de trabalho de uma gueixa moderna.
No verão de 1987 tive a feliz oportunidade de conhecer parentes em Kyoto: a família de minha tia-avó, Sumiko Yamaguchi. Além de administrar uma pequena empresa de distribuição de produtos Maxell, a família dedica-se há algumas gerações à pintura artesanal tradicional em seda para quimonos. Na época, haviam poucos meses que minha avó, irmã da Sumiko obaasan, tinha falecido e eu era a primeira pessoa do lado brasileiro da família a ir ao Japão em 50 anos. Embora eu fosse apenas fazer uma visita rápida, pois os compromissos da bolsa de estudos infelizmente não me permitiram mais do que aquele único dia livre, a família organizou uma recepção daquelas que só em filmes ou em sonhos a gente vê.
Ainda mal havia absorvido meu deslumbramento com a linda casa antiga da Sumiko obaasan, toda de madeira e tatami de palha, com móveis rústicos e velhíssimos objetos de família, quando rapidamente a parentada juntou várias mesas baixas na sala dotokonomá e me chamaram para ir até a entrada. Quase caí para trás quando vi uma jovem gueixa chegando, acompanhada por uma gueixa senhora, carregando um shamisen embrulhado num grande furoshiki. Quando me disseram que a presença delas era um presente da família para mim, pensei: "Será que ouvi direito? Presente!?"
Eu achava que gueixas só se apresentavam em restaurantes e serviam de anfitriãs para homens. Os parentes vieram me salvar de minha ignorância, e me explicaram que o fato delas irem a uma residência para ciceronear alguém é um privilégio concedido às pessoas consideradas "família" da gueixa. Produzindo quimonos finos, há anos os Yamaguchi conviviam com a restrita comunidade das gueixas de Gion, e a Sumiko obaasan era "madrinha" de duas maikos (jovens aprendizes de gueixa), o que significa que ela patrocinava duas meninas que desde os 14 anos de idade estavam vivendo numa casa de gueixas sendo educadas para ser gueixas. Era o caso da maiko-san que sorridentemente sentou-se ao meu lado, que também chamava minha tia-avó de "tia" - automaticamente, eu e minhas primas chamávamos amaiko-san de "prima". Foi assim que também descobri que as gueixas não ciceroneiam apenas homens. Não é comum, mas há casos de famílias que as contratam para entreter crianças, ou como no meu caso, uma parente que veio de muito longe. Patrocinar a educação de uma gueixa é algo que confere status de "protetor das artes" entre os japoneses. Os que o fazem, como a Sumiko obaasan, são constantemente cumprimentados com grande respeito, e vistas como pessoas ricas e cultas.
Gueixas são um deleite para os olhos, como uma obra de arte viva. Eu não conseguia parar de olhar para a prima maiko-san, que procurou gentilmente não demonstrar desconforto com a minha curiosidade. O penteado volumoso, duro e elaborado, com um enfeite floral e outro de pingentes metálicos, me fez pensar que se tratava de uma peruca, mas era o cabelo dela mesmo! A maquiagem branca parecia pasta de dente aplicada no rosto. Não resisti e apertei um pouco com a ponta do indicador a bochecha da maiko, dando um sustinho na prima e causando na parentada risadas do meu comportamento (impressionante aquela camada branca não ser rígida). A geiko-san (gueixa experiente), além de professora de shamisen, era a oneesan (irmã mais velha, ou orientadora da gueixa aprendiz) da maiko-san e amiga de minha tia-avó. Uma senhora elegante, discreta e bonita. A pele dela me fez suspirar de inveja.
E que quimono lindo, diferente dos que são usados por nós, as pessoas comuns. O quimono de uma maiko é mais longo, arrastando-se pelo chão, e o obi de brocado brilhante é mais largo e cai solto em forma de cascata nas costas. Fiquei espantada ao saber que para adquirir um só quimono daqueles seria preciso dispor de uns milhares de dólares - o suficiente para comprar um carro zero grande com todos os opcionais. Todos os dias, só para se arrumar, fazer a maquiagem e se vestir, ela leva duas horas - e com ajudantes. A maquiagem ela fazia sozinha, mas o penteado era feito por uma senhora especializada em arrumar cabelos de gueixas e um senhor, também especializado, era quem todos os dias vinha ajudá-la com as várias camadas de quimonos e a amarrar o enorme obi. Pensando bem, duas horas até que é rápido, pela quantidade e complexidade da produção.
O que mais chama a atenção nas gueixas, entretanto, é a beleza de seus gestos e seu modo de falar. Cada movimento delas é estudado para ser estético e parecer delicado. Espontaneidade não é uma característica de uma maiko. O tempo todo percebe-se que elas praticam um treinamento intenso para moldar o andar, o modo de sentar, a postura, o jeito de segurar um copo, tudo. O simples gesto de servir um refrigerante é um desafio, que nas mãos de uma maiko vira um pequeno espetáculo. As atuais garrafas de um litro e meio ou dois, pesadas e desajeitadas, são seguradas com firmeza mas aparente delicadeza por uma maikotreinada sobre um dos braços, com o bocal apoiado entre os dedos. O processo para encher um copo de refrigerante transforma-se numa simples mas engenhosa coreografia com as mãos. Um dos talentos de uma gueixa é transformar o trivial em arte.
Enquanto se conversa e se come ao redor da mesa farta, amaiko-san está constantemente preocupada em verificar se estou bem servida. Tenho certeza de que bebi, mas meu copo ficou cheio até o fim do jantar. Aliás, não precisei me servir. Ela se ocupou de colocar em meu pratinho o que eu quis comer, e no caso dos sushis, ela literalmente os levou um por um à minha boca. Mimo puro. "Não é à toa que os homens se derretem por elas", pensei. Elas também são habilidosas para manter uma conversação em ritmo e ambiente agradável. Principalmente ageiko-san. Quando um assunto ia se esgotando, ela sutilmente já alinhavava outro antes do falecimento definitivo do tema. Nada muito polêmico: amenidades sobre o clima, as frutas e as flores da estação, ver quem se parece com quem nas fotos dos parentes do Brasil, se eu conhecia alguma canção infantil em japonês (para admiração de todos, as que eu conhecia eram antiqüíssimas, de antes da guerra, pois eram as que a minha avó cantava), etc. O barato é o falar cantado, com a voz levemente afinada, que caracteriza o sotaque de Kyoto, usado pelas gueixas. Fica sonoramente simpático, delicado, mas para mim, como eu não conhecia as particularidades da linguagem local, parecia um idioma diferente do japonês. Lá não se fala fulano-san, e sim fulano-han. Em Kyoto, "bem-vindo" não é irashaimase- é oideyasu. Desu vira dosu. "Obrigado" não é arigatô - é ookiní. "Quimono" vira obebe. Watashi (eu) vira ate. E por aí vai.
Após o jantar, afastamos os móveis de uma parte da sala. No pequeno espaço, asensei de shamisen toca o instrumento e canta, enquanto a maiko-sanmostra suas habilidades, dançando com um leque que rodopia no ar e salta direitinho de uma mão para outra, como se tivesse vontade própria. Nessa hora percebi que a linda barra do quimono que se arrastava pelo chão também vira um desafio. Uma pessoa destreinada inevitavelmente pisaria ou tropeçaria na cauda do quimono, mas uma gueixa, além de dançar com aquela indumentária pesada, usa o movimento da barra e das mangas longas do quimono a seu favor e faz tudo parecer leve. É difícil descrever com palavras a graça que é ver uma gueixa dançar. Não sei por que, mas é bonito mesmo. Depois de uma sessão de fotos, e de algumas tentativas minhas de tirar um sonzinho doshamisen, que devem ter frustrado a dedicada e paciente sensei, às nove e meia em ponto um taxi - o mesmo que havia trazido as gueixas pontualmente às cinco e meia - veio buscá-las.A pontualidade japonesa é outra coisa impressionante. E como tudo mais no Japão, festas têm hora certa para começar e para acabar. Acompanhando-as à porta, vi a maiko-san erguer a longa barra do quimono para calçar um altíssimo par de guetás(sandálias de madeira), em forma de trapézio, de 20 centímetros de altura. Devido ao formato, a área da sandália que toca o chão acaba sendo a metade da do pé, o que certamente obriga amaiko-san a um exercício constante de equilíbrio naqueles tronquinhos. Mas nada de balançar ou tropeçar - ela saiu andando com a maior naturalidade! Perguntei se não era difícil usar aquilo, e ela respondeu que conseguia até correr com aqueles guetás. Até entrar num carro com o quimono exige da gueixa um "jeitinho" próprio. Aquilo que seria complicado para nós, fica simples e elegante no jeito delas.
Quando elas se foram, algo especial pareceu ter ido com elas. De repente, a casa e todo mundo pareceu ter retornado à vidinha de sempre. Comecei a entender o que os japoneses queriam dizer quando cunharam a expressão "mundo flutuante". Obrigada,obaasan, por um dia que mudou o resto de meus dias.
ORIGEM DAS GUEIXAS
O surgimento da gueixa tem muito a ver com a maneira pela qual a sociedade japonesa foi organizada durante o governo dos xóguns da família Tokugawa, também conhecido como a Era Edo (1603 - 1867). No século XVII, nas primeiras décadas do estabelecimento do xogunato, crescentes medidas de controle da vida civil foram tomadas objetivando não só estabilidade interna, mas a manutenção do clã Tokugawa no poder, o que deu à sociedade como um todo uma forma feudal, rígida e hierarquizada, de pouca mobilidade de uma classe a outra e fechada em si mesma. Influências externas, como o cristianismo, eram vistas como negativas e subversivas, de tal modo que em 1637 um édito do xogunato ordenou a proibição do comércio e da vinda de navios europeus (excetuando os holandeses da Cia. das Índias, que eram tolerados por não misturar religião ao comércio, e que ficavam isolados em uma ilha perto de Nagasaki) e a expulsão dos estrangeiros, impondo um isolamento do Japão que se estenderia por dois séculos.
O controle do governo sobre a sociedade civil atingiu em especial as mulheres. Excetuando os papéis de mãe, esposa e dona de casa, não havia uma profissão que uma mulher pudesse exercer, que não fosse na condição de auxiliar de seu marido na agricultura, ou num comércio dirigido pelo esposo - trabalhos que eram considerados "obrigação" da mulher e que, por isso, não recebia uma remuneração específica. A falta de opções de profissões para as mulheres foi agravada em 1629, quando por lei o xógun tornou o teatro uma atividade proibida às mulheres. Impedidas de praticar atividades de entretenimento em público, os palcos foram rapidamente ocupados por homens travestidos, para substituir a presença feminina em cena. Não tendo um marido ou uma família que a sustentasse, restava à mulher apenas a prostituição como meio de subsistência.
A palavra geisha significa literalmente "pessoa da arte, artista", e ela foi originalmente usada para designar comediantes e músicos que se apresentavam em banquetes e festas particulares no século XVII. Assim, as primeiras gueixas não foram mulheres, mas homens. Os otoko-geisha (artistas masculinos) eram especializados em entreter pequenas platéias em festas, dançando, cantando contando histórias e piadas. Como os palcos estavam proibidos às mulheres, as festas privadas tornaram-se os únicos lugares onde as mulheres podiam tocar música, dançar e cantar, e assim surgiram as onna-geisha (artistas femininas).
Entretanto, aquela era uma época em que a atividade artística e prostituição se confundiam. Donos de pousadas e de casas de chá ofereciam suas funcionárias, que de dia eram arrumadeiras e garçonetes, como prostitutas à noite, ao que se dava o sutil nome de "serviço de travesseiro". Nem sempre se tratava de prostituição voluntária - patrões inescrupulosos diziam às empregadas "agrade o cliente ou vá embora". Em sua origem o teatro kabuki era predominantemente feminino, porém muitas dançarinas de kabuki se prostituíam e escândalos de samurais envolvidos com elas na capital foram a causa da proibição de 1629. Assim, a clientela dos banquetes não esperava menos das mulheres artistas. Embora durante muito tempo a atividade de gueixa confundiu-se com prostituição, a partir do século XVIII medidas que oficializaram e regulamentaram a prostituição acabaram distinguindo as prostitutas das gueixas.
PROSTITUIÇÃO LEGALIZADA
No ocidente, considera-se prostituta a mulher que mantém relações sexuais mediante pagamento. Basta a mulher fazer isso uma só vez, que ela acaba sendo considerada prostituta sempre. No Japão, é necessário saber se a mulher vive disso, ou seja, para ser considerada prostituta é preciso que ela faça das relações sexuais mediante remuneração sua principal fonte de renda. Se uma mulher tem amantes mas obtém renda de atividade diversa da relação sexual paga, ela não é considerada prostituta. Tal distinção não é meramente conceitual. Ela foi necessária na instituição da prostituição legalizada no Japão feudal.
Com paz interna, a vida urbana no Japão floresceu graças à estabilidade e ao sankin-kõtai (presença alternada), sistema criado em 1635 pelo governo que obrigava os daimyõs (senhores feudais das províncias) e seus samurais a morar em Edo (atual Tóquio) por alguns meses. Com hordas de daimyõs e samurais indo e vindo pelo país, vilas e cidades se prepararam para fornecer produtos e serviços aos viajantes e o comércio prosperou. Éditos do xógun passaram a impor rigorosa organização nas cidades, intervindo até em aspectos dos mais particulares da vida civil.
No Japão feudal, casamentos eram arranjos de interesses entre famílias, e não uniões por amor. Assim, a maioria dos homens considerava que sexo com as esposas era "por dever", ou seja, para procriação e preservamento da família ou clã. Sexo com prostitutas, por outro lado, era "por prazer", ou seja, sem responsabilidades. Não tendo as próprias religiões locais (o budismo e o xintoísmo) fortes restrições ao sexo comparadas às religiões ocidentais (de base judaico-cristã), a tolerância à prostituição era grande na sociedade feudal japonesa. Longe de casa e das esposas, samurais ávidos por diversão invadiam as cidades. Assim, foram criados os "bairros do prazer", onde se concentravam teatros, restaurantes, pensões - e os bordéis. Concentrados, até cercados com muros e portões, as autoridades tinham mais controle sobre tais bairros, seja sob o caráter repressivo, seja sob o tributário. Enquanto não legalizada, a prostituição nada rendia ao poder público, mas criando bordéis oficiais a atividade passou a ser lucrativa também para o governo.
As profissionais do sexo, genericamente chamadas de jorõ(prostituta, cortesã), passaram a ser obrigadas a morar em bordéis, que passaram a ser administrados como pequenas empresas e onde havia uma hierarquia interna. As mais jovens eram chamadas de yûjõ (mulher do prazer) e as mais experientes eram as oiran ou age-jorõ, que eram letradas e eram responsáveis pela organização e administração do bordel. Asage-jorõ eram acima de tudo versadas nas chamadas "artes do sexo", que mantinham como um conhecimento secreto e exclusivo. Há registros de que uma prostituta, para chegar aage-jorõ precisava, por exemplo, conhecer as "48 posições do prazer", saber quais mariscos, peixes e raízes serviam de afrodisíacos, e como agradar um homem fingindo um convincente orgasmo (quanto mais homens ela pudesse atender em um dia, maior era o lucro, e para tanto ela precisava se preservar). Uma das técnicas secretas mais exóticas e chocantes era o seppun, o "ato sexual com a boca". Nós chamamos isso de beijo.
Mas é de conhecimento universal de que onde há regras, controle e cobrança de impostos, há também os que procuram meios de burlar o sistema. As mise-jorõ (prostituta de loja) normalmente eram serviçais em restaurantes e pensões, que patrões ofereciam aos clientes para favores sexuais como um "serviço por fora", conseqüentemente, livre de impostos. Como formalmente as mise-jorõ eram arrumadeiras ou garçonetes, elas não eram consideradas prostitutas, e assim não eram obrigadas a viver num bordel. Prostitutas que não queriam viver num bordel, ou sujeitar-se a um patrão-cafetão, arriscavam-se procurando clientes longe dos bairros do prazer. Uma característica das prostitutas de rua da época era uma esteira de palha, que elas carregavam enrolada debaixo do braço para rapidamente poder atender um cliente num lugar mais discreto ou no meio do mato. Podendo ser presas por prostituição ilegal, ao avistar um policial elas se apressavam a esconder ou livrar-se da esteira.
Vários bordéis oficiais no Japão feudal estavam longe de ser casas apertadas em vielas escuras, com cubículos espartanos e sujos. Eram limpos, espaçosos, agradáveis; alguns até tinham estrutura para promover banquetes. Era mantendo tal atmosfera que as prostitutas procuravam atrair uma clientela grande e freqüente, e para entreter os clientes também chamavam gueixas - homens e mulheres - para tocar, dançar e cantar. Embora as yûjõ e as jorõ fossem o principal motivo da presença da clientela e fossem as "donas da casa", eventualmente um ou outro cliente acabava se interessando pela - ou pelo - gueixa, o que obviamente criava rivalidade entre prostitutas e gueixas. Além disso, enquanto as prostitutas eram obrigadas a morar em bordéis seguindo regras de hierarquia e não podiam deixar os limites dos bairros do prazer (para evitar que saíssem, elas só podiam andar nas ruas escoltadas), os e as gueixas não sofriam tais restrições. Tais fatores causavam um tipo de "concorrência desleal", e por isso as prostitutas faziam segredo de seu arsenal de técnicas erotizantes. A situação entre gueixas e prostitutas só se tornou mais definida a partir de 1779, quando um decreto do governo reconheceu a profissão de gueixa.
DEFININDO O ESPAÇO DA GUEIXA
Em 1779, a gueixa foi reconhecida como praticante de uma profissão distinta da prostituição e foi criado o kenban, um tipo de cartório específico para registrar gueixas e fiscalizar o cumprimento das regras que a partir de então passaram a reger a profissão. Apenas gueixas registradas no kenban eram reconhecidas e tinham autorização para trabalhar. Algumas regras que as gueixas passaram a ter que seguir eram parecidas com as das prostitutas, como a obrigatoriedade de viver nasokiyas (casas de gueixas). Mas outras as diferenciaram das prostitutas. É importante observar que as prostitutas tinham prioridade em relação às gueixas na sociedade japonesa da época, pois a função e situação delas já estava definida há tempos. Assim, muitas das regras do kenban visavam limitar o que as gueixas podiam fazer.
Como artista, a gueixa tem a obrigatoriedade de ser versada em música, dança, canto e literatura - a prostituta não. A prostituta vestia-se com os quimonos mais brilhantes, estampados e extravagantes que tivesse - a gueixa foi proibida de usar tais quimonos e obrigada a ter um visual mais discreto. As prostitutas usavam até uma dúzia de kanzashis (grandes espetos decorativos para o cabelo, considerados jóias) e até três pentes de casco de tartaruga na cabeça - a gueixa foi limitada a trêskanzashis e um pente. As gueixas foram proibidas de usar o obiamarrado na frente, que se tornou característico das prostitutas (como a prostituta vestia-se e despia-se várias vezes ao dia, era mais rápido e prático amarrar o obi na frente do que atrás). E as gueixas foram proibidas de dormir com os clientes das prostitutas.
Se uma prostituta acusasse uma gueixa de roubar seu cliente, okenban fazia uma investigação, e se a gueixa fosse considerada culpada, ela podia ser suspensa ou expulsa da profissão. Para evitar que uma gueixa fugisse da casa de gueixas, ou caísse na tentação de dormir com um cliente das prostitutas, elas foram obrigadas a andar com a escolta de um homem de confiança da responsável pela okiya onde ela vivia.

As restrições do kenban moldaram não só a aparência, mas o que efetivamente a gueixa se tornou e é atualmente. Para ter condição de artista, as gueixas passaram a dedicar enorme tempo ao estudo e treinamento em artes, e passaram a ser valorizadas e remuneradas como entertainers. Proibidas de ter a aparência rica mas aperuada das prostitutas, as gueixas tornaram-se mestras da elegância, da beleza discreta e da sensualidade insinuada. Atrair os homens era, como ainda é, básico para elas formarem uma clientela, mas sexo não era, como ainda não é, a finalidade pela qual os japoneses contratavam uma gueixa - para isso existem as prostitutas. Diferentemente das prostitutas, gueixas podiam se recusar a ter sexo com um cliente, mas não se podia evitar que gueixas tivessem relacionamentos sexuais com seus próprios clientes (desde que não fosse cliente de uma prostituta, tudo bem). Com o tempo, a figura do homem de escolta foi substituída pelo camareiro - um profissional especializado em vestir gueixas.Por volta de 1780 ainda haviam otoko-geisha, embora as mulheres fossem esmagadora maioria na profissão. No início do século XIX, gueixa era invariavelmente uma mulher.
GUEIXAS CHEGAM À MESA
Tocar, cantar, dançar e contar histórias para entreter os comensais num banquete. Essa era a principal atividade exercida pelas gueixas. Sentar-se à mesa e fazer companhia para os homens era algo que só as prostitutas faziam - mesmo porque elas queriam garantir que seus clientes quisessem sua companhia após o jantar. Mas aos poucos, os próprios clientes passaram a pedir que as gueixas também se sentassem à mesa. Educadas e cultas, as gueixas tornavam a conversação mais agradável e o tempo fluía mais rápido. Com as gueixas, os clientes conseguiam um tipo de relacionamento que não conseguiam ter com suas esposas, ou mesmo com as prostitutas. E nem sempre os homens que íam aos banquetes queriam fazer sexo depois de comer. Percebendo que muitos queriam apenas distrair-se, ou quando muito flertar, as gueixas descobriram seu público.
Para formar clientela própria, as gueixas passaram a evitar os bordéis e concentraram suas atividades em restaurantes e casas de chá, ou abriam suas próprias casas de chá. Por volta de 1840, uma gueixa chamada Haizen decidiu aprender um pequeno ofício que era executado até então somente por homens: servir saquê à mesa. Haizen passou fazer o mesmo, bem como fazer companhia à mesa aos convivas. Ela rapidamente tornou-se a gueixa mais requisitada de Kyoto e todas passaram a fazer o mesmo. Desde então, as gueixas vêm desempenhando o papel de anfitriãs em banquetes, servindo bebidas e conversando com as pessoas, além de dançar, cantar, contar histórias e fazer jogos de salão.
Durante o bakumatsu, os anos do ocaso da Era Edo, as casas de chá de gueixas foram estratégicas para a organização do movimento que restaurou o poder ao Imperador e destituiu o xogunato Tokugawa. Contando com a discrição e o voto de segredo das gueixas, as casas de chá tornaram-se importantes locais de reunião para os "conspiradores", uma vez que reuniões estavam proibidas pelo governo feudal. Nas casas de chá e restaurantes entretanto, era totalmente aceitável a movimentação de clientes e pequenas aglomerações, e isso encobria eventuais reuniões políticas. Quando o Imperador Meiji subiu ao trono em 1867, a colaboração das gueixas não foi esquecida. Na Era Meiji (1868 - 1912) promoveu-se rápida e intensa ocidentalização e modernização do Japão, com a implantação de ferrovias, indústrias, a adoção de vestimentas ocidentais e a proibição de costumes que, apesar de arraigados há séculos na cultura japonesa, foram abolidos por constranger os ocidentais, como a poligamia e pintar os dentes de preto. As gueixas, entretanto, não só permaneceram intocadas, como foram promovidas pelo próprio governo como símbolos da melhor e mais bela tradição japonesa.
PRESTÍGIO E INFORTÚNIOS
As gueixas tornaram-se símbolo de uma invejável independência, que as demais mulheres no Japão de então não tinham. A partir da Restauração Meiji elas passaram a desfrutar de prestígio, tendo contato com os políticos mais influentes e os empresários mais bem-sucedidos, e de um estilo de vida glamuroso. O que elas usavam virava moda e eram imitadas por outras mulheres - o que fez com que os quimonos continuassem sendo usados pelas mulheres por mais tempo que os homens, que rapidamente adotaram o vestuário ocidental.
Gueixas viviam com luxo, freqüentavam festas, não faziam trabalhos domésticos nem cozinhavam, dedicavam-se à dança e à música, podiam ter vida sexual e não precisavam se casar. Aliás, okaryukai, o mundo da gueixa, era, como é até hoje, um mundo dominado pelas mulheres numa sociedade machista. Gueixas eram as "supermodels" da época. Tarõ Katsura, Primeiro-ministro do Japão de 1908 a 1911, assumiu uma gueixa, Okoi, como amante. O oligarca Kido Kõin casou-se com uma gueixa de Gion, Ikumatsu. Outro importante membro do governo foi mais além: o Ministro das Relações Exteriores, Barão Mutsu, casou-se duas vezes, e em ambas com gueixas. Ter uma gueixa como amante ou esposa tornou-se símbolo de status.Se ter um rico e influente japonês como danna("patrono", amante de uma gueixa) ou marido assegurava à gueixa uma vida de conforto e prestígio, há entre as gueixas a idéia de que unir-se a um estrangeiro dá no oposto, podendo até terminar em tragédia. Tal crença é baseada na vida de algumas gueixas, que tornaram-se famosas por suas tristes histórias. A mais conhecida é a de Okichi, gueixa designada pelo xogunato para servir Townsend Harris, primeiro diplomata americano enviado ao Japão em 1856. Aparentemente ocorreu que Harris levou Okichi para sua casa em Shimoda, e com isso a gueixa entendeu que Harris a assumira como esposa, conforme os costumes japoneses da época. Harris, entretanto, sendo ocidental, sempre considerou Okichi uma mera cortesã, e mesmo tendo vivido anos com ela, sequer a mencionou em seus diários. Em 1862, Harris demitiu-se de seu posto e voltou para os Estados Unidos, abandonando Okichi, que cometeu suicídio. Até hoje, as gueixas de Shimoda prestam homenagem a Okichi, visitando seu túmulo. A história de Harris e Okichi inspirou Puccini a criar a ópera "Madame Butterfly", e teve uma versão romanceada numa produção de Hollywood em 1958, "O Bárbaro e a Gueixa", com John Wayne no papel de Harris. Jovem gueixa do início do século XX
Há também a história de Yuki Morgan, gueixa que casou-se com o milionário americano George Morgan. Sobrinho do banqueiro magnata J. Pierpont Morgan, George conheceu Yuki no Japão enquanto fazia uma viagem ao redor do mundo na época da 1ª Guerra. Apaixonou-se pela gueixa e decidido a casar-se com ela, liberou-a da okiya à qual ela era ligada - foi o primeiro estrangeiro a fazê-lo - pagando a considerável soma de 20 mil dólares (cerca de 250 mil dólares em valores atualizados). Assim que se casaram, George e Yuki foram morar em Nova York, onde não foram bem recebidos. Mesmo sendo milionário, Morgan sofreu forte preconceito contra sua esposa japonesa, e decidiram então morar na França, onde viveram por 10 anos, até o prematuro falecimento de Morgan. Quando Yuki voltou ao Japão, os militares tinham assumido o poder, invadido a Manchúria e se preparavam para a guerra, e ela foi discriminada por ter se casado com um estrangeiro e vista como espiã americana. Yuki foi perseguida pelo governo, passou dificuldades no Japão durante a 2ª Guerra, e viveu em Kyoto até falecer aos 80 anos.
BONS ANOS E TEMPOS DIFÍCEIS
Nas décadas de 1920 e 1930, o Japão passou por um período de grande prosperidade econômica. Políticos, industriais, banqueiros, empresários e a ascendente classe dos militares de alta patente tornaram-se assíduos e generosos clientes de gueixas, formando uma elite vista pela sociedade japonesa como mecenas das artes. O status que a gueixa tinha e dava aos clientes inspirava muitas mulheres a seguir a profissão, embora poucas efetivamente conseguissem entrar para o reservado mundo dokaryukai. Mesmo assim, em 1920, haviam 80 mil gueixas registradas ainda nos moldes do kenban no Japão. Foi o auge da população de gueixas no país.
A demanda por gueixas era tão alta, que gerou práticas perversas. Casas de gueixas administradas por okaasans ("mães", modo pelo qual as gueixas mais velhas administradoras das casas são chamadas) gananciosas e interesseiras, tornaram-se senzalas douradas para meninas e adolescentes. Sempre lembradas do enorme investimento que representavam para aokiya, como se tivessem assinado uma dívida pelo resto da vida, as maikos eram exploradas pelas okaasans, que para sugar ao máximo seus ricos clientes criaram os chamados "leilões de virgindade". Quando uma maiko chegava aos 16 anos, a okaasancontatava seus clientes e lhes oferecia a gueixa pela melhor oferta. Pouco interessava se a jovem concordava ou não com a transação, e fugir de nada adiantava. A deserção de uma gueixa era vista pela sociedade como um ato de traição à okiya - até os pais das gueixas as delatavam ou as mandavam de volta. Sabe-se que nos anos 30 a virgindade de uma maiko chegou ao valor recorde de 850 mil dólares. Mesmo criticados pela imprensa, por reduzir a nobre profissão da gueixa à condição da mera prostituição, os "leilões de virgindade" continuaram sendo cínicamente praticados até a 2ª Guerra Mundial. Com a ocupação americana, tal prática passou a ser considerada abusiva, e asokaasans, temendo o fechamento de suas casas, imediatamente aboliram os ditos "leilões".
Se durante a Era Meiji as gueixas estavam na vanguarda da moda japonesa, a partir da década de 20 elas passaram a sofrer concorrência com o constante aumento da ocidentalização dos costumes no país. Em plena Era do Jazz e das melindrosas, bares à ocidental tornaram-se extremamente populares pelo Japão e surgiram as jokyûs (garotas de cafés): moças que vestiam kimonos de uso cotidiano com aventais ou à ocidental, e que serviam de garçonetes e de acompanhantes para os clientes - as precursoras das atuais "bar hostesses". Para se distinguir dasjokyûs, as gueixas decidiram não se "modernizar", e assumiram definitivamente o papel de praticantes do tradicional. Desde então, modismos ocidentalizados passaram a ser desprezados pelas gueixas. A imagem de personificações da tradição fez a atividade das gueixas prosperar nas décadas de 20 e 30, período em que o nacionalismo exacerbado foi extremamente alimentado pelo governo no Japão, e tudo aquilo que representava "tradição" era valorizado.
Nos anos 40, à medida em que o Japão mergulhava na 2ª Guerra e aumentava a escassez de produtos básicos e alimentos, as gueixas continuavam com seu trabalho e estilo de vida glamuroso - as okiyas mais prósperas eram justo as que tinham como clientes empresários ligados ao governo e membros dos altos escalões militares. Isto certamente contrastava com a austeridade e os sacrifícios impostos ao resto da população civil, conclamada ao esforço de guerra "pela pátria e pelo Imperador". De súbito, em 1944, o governo determinou o fechamento de casas de chá e de bares, e proibiu as gueixas de trabalhar como gueixas. Todas as mulheres - inclusive as gueixas - tiveram que ir trabalhar nas fábricas pelo esforço de guerra. Esta situação durou até outubro de 1945, quando o governo de ocupação americano autorizou a reabertura das casas de gueixas.
O período do governo de ocupação americano (1945 - 1952) trouxe uma série de novos desafios para a gueixa. A derrota na guerra causou, além da falência das instituições, a falência de boa parte dos clientes das gueixas. Uma nova clientela teve de ser conquistada, e elas procuraram os oficiais americanos. Se antes as gueixas desprezavam tudo que representava o ocidente, agora elas procuravam aprender inglês e músicas americanas. O choque de culturas foi inevitável, e chegou a ser objeto de filmes produzidos em Hollywood nos anos 50, como "A Casa de Chá do Luar de Agosto". Mas o problema maior ocorreu entre os soldados e militares de baixa patente. Ao saber que gueixas compareciam às recepções e jantares dos oficiais, sem presenciar ou entender o que as gueixas exatamente faziam em tais ocasiões, soldados americanos passaram a achar que "gueixa" significava "prostituta" em japonês, e quando saíam à procura de mulheres - que nada mais eram que moças comuns famintas tentando sobreviver no caos do pós-guerra - perguntavam se elas eram uma "guíxa" (a pronúncia que usavam para "geisha"). Como normalmente a resposta era um aceno afirmativo com a cabeça, os soldados passaram a acreditar que as garotas que arranjavam eram "guíxas", e com isso tornou-se popular no ocidente a idéia de que gueixas eram simples prostitutas com aparência exótica.
Embora o governo de ocupação tivesse promulgado uma nova Constituição para o Japão em 1947, os americanos mantiveram em vigor as antigas regras da prostituição legalizada, com bordéis oficiais para os soldados. Embora tais estabelecimentos nada tivessem a ver com as okiyas e as casas de chá, os soldados logo as apelidaram de "guíxa houses". A prostituição no Japão deixou de ser legalizada em 1952, ao final do governo de ocupação. A atividade da gueixa quase se extinguiu neste período difícil, mas sobreviveu. Sua imagem, entretanto, foi manchada pelo choque cultural. Se no passado as prostitutas no Japão se esforçaram para não ser confundidas com as gueixas, desde o período da ocupação as prostitutas passaram a querer ser confundidas com gueixas.
Uma nova fase de prosperidade se iniciou no Japão a partir de 1953, que culminou na atual condição de 2ª maior economia do mundo. Cultivando tradições, a gueixa se permitiu algumas modernidades, como falar inglês e entreter estrangeiros (nos tempos de Okichi e Yuki Morgan, elas o faziam a contragosto e só se fossem ordenadas). E para desfazer a equivocada imagem que o ocidente tinha das gueixas, o governo passou a chamá-las para ciceronear e entreter personalidades estrangeiras em visitas oficiais ao Japão, como a Rainha Elizabeth II e o Príncipe Charles da Inglaterra, o Rei Hussein e a Rainha Aliya da Jordânia e o Presidente Gerald Ford - o primeiro presidente americano a visitar o Japão após a 2ª Guerra.
A GUEIXA MODERNA
Ser uma gueixa é mais do que uma mera profissão. É um estilo de vida que exige total e absoluta dedicação. É aceitar acima de tudo que será uma vida de servidão, que eventualmente terá grandes recompensas. Como tudo no Japão, ser gueixa é também um do, um caminho a ser percorrido pelo resto da vida. Karyukai, "o mundo da flor e do salgueiro", é o nome que se dá ao mundo das gueixas. Cada gueixa é como uma flor e um salgueiro: bela em seu próprio modo de ser como uma flor; graciosa, flexível mas forte como um salgueiro.
Há poucas décadas atrás, era comum meninas de 8 a 14 anos serem adotadas por okiyas - até mesmo vendidas pelas famílias às casas, prática que foi proibida após a 2ª Guerra. Uma lei determinando que o segundo grau completo é requisito obrigatório para os que se candidatam a uma profissão no Japão, fez com que as casas de gueixa passassem a aceitar meninas só a partir dos 17 anos de idade. Se por um lado pegar crianças para treinar como gueixas tem o benefício de dispor de mais tempo para uma educação mais cuidadosa, por outro lado é óbvio que uma criança não tem como escolher se aquilo que ela está sendo educada para fazer é aquilo que ela efetivamente quer fazer pelo resto da vida. Com tantas oportunidades que existem para a mulher na moderna sociedade japonesa, a deserção de gueixas de okiyas que investiram em seu treinamento e sustento tornou-se relativamente freqüente. Cada gueixa que deserta deixa um prejuízo considerável para a casa que a recebeu (calcula-se que o valor mínimo gasto com a educação e quiminos de uma gueixa é de 500 mil dólares). Jovens um pouco mais maduras, que decidem tornar-se gueixas por opção, tornaram-se mais interessantes para as casas.O treinamento básico de uma jovem gueixa dura no mínimo 5 anos. As jovens gueixas aprendizes são chamadas maiko (mulher da dança). Enquanto aprendizes elas dedicarão seus dias a aulas de dança, canto, música, literatura, e na prática de uma etiqueta que mudará seus modos, gestos, até a linguagem corporal, para alcançar o padrão de elegância que se espera de uma gueixa. À noite, ela irá a festas e banquetes para entreter os convidados e observar atentamente as gueixas experientes, para aprender como agir e se portar vendo o exemplo delas. A esta prática dá-se o nome de minarai (aprender vendo). Em média, paga-se de 500 a mil dólares por hora por gueixa, sendo que nunca uma gueixa vai sozinha. Quando se "contrata uma gueixa", contrata-se no mínimo duas.
Ter namorados ou relacionamento sexual com clientes nesta fase está fora de questão. No passado, em tempos em que as gueixas eram virtuais escravas da casa, houve até a iniciação sexual demaikos através de "leilões de virgindade", praticados porokaasans tiranas e gananciosas. Tal prática foi abolida após a 2ª Guerra. Hoje, com direitos garantidos e várias opções de carreira profissional para as mulheres, nenhuma gueixa pode ser obrigada a permanecer numa okiya ou numa atividade contra sua vontade. Para evitar prejuízos com uma desistência e garantir a continuidade de suas okiyas, as atuais okaasans procuram tratar bem suas maikos e geikos. Sinal dos tempos.
Duas cerimônias marcam a passagem de gueixa adolescente para gueixa mulher. Por volta dos 18 anos ocorre a cerimônia domizu-age (subida das águas), no qual uma maiko muda de penteado 5 vezes e, se quiser, perde a virgindade com um de seus clientes. Trata-se de um rito de passagem pelo qual a jovem gueixa passa a ser reconhecida como mulher, e ela passa a receber tanto propostas de casamento de clientes (sendo que ao se casar ela deixa de ser gueixa), como propostas para tornar-se amante de um deles (caso no qual ela pode tornar-se independente da casa à qual pertence mas continuar trabalhando como gueixa). Ser virgem aos 18 anos em tempos como os de hoje, nos quais adolescentes de 15 têm mais experiência no assunto que as maikos, é algo que deixa admirados os que têm na mente a idéia estereotipada da gueixa como uma expert no "Kama Sutra".Quando suas habilidades já são consideradas suficientemente maduras, a jovem gueixa ganha o status de geiko (mulher da arte), o que atualmente ocorre entre 20 e 23 anos de idade. Enquanto maiko, a gueixa usa quimonos com cauda e obi largo em cascata nas costas, sempre com colarinho estampado ou colorido, maquiagem ultra-branca e o grande penteado com pente de casco de tartaruga, flores e pingentes metálicos. Ao se tornar uma geiko, ela passa a usar colarinho branco, quimonos mais discretos e penteados mais simples, ganhando uma aparência mais adulta e mais elegante. A cerimônia na qual uma gueixa aprendiz passa a ser considerada uma gueixa experiente chama-se erikae (mudança de colarinho). Isso também implica em novas responsabilidades para a geiko em relação à okiya, bem como manter-se um exemplo para as demais gueixas e auxiliar as mais jovens em seu aprendizado. As aulas de literatura, etiqueta, música, canto, dança e arranjo floral, entretanto, continuam até os 40 anos de idade. Atualmente, aulas de inglês também fazem parte do currículo.
Esta foi uma breve descrição de como são formadas as gueixas mais refinadas e caras do Japão, como as das casas de gueixas de Gion e Pontochõ em Kyoto, e de Akasaka em Tóquio. Existem também as onsen geisha (gueixas de termas), que apesar do nome são prostitutas que adotam só a aparência e se valem da fama das gueixas. São falsas gueixas que se apresentam durante o dia em teatros baratos nas cidades turísticas onde há termas, e fazem de programas com turistas à noite sua principal fonte de renda. Usam perucas e quimonos teatrais, bons o suficiente para iludir os que nunca viram uma gueixa de verdade (que são muitos, mesmo entre os japoneses), mas nada possuem da postura e das maneiras elegantes características da verdadeira gueixa. Não se pode esperar de uma onsen geisha, portanto, a capacidade de guardar segredos ou de ser discreta, como fazem as verdadeiras gueixas.
Que o diga o ex-Primeiro-ministro Sõsuke Unõ. Em junho de 1989, ao alcançar o posto máximo que um político pode almejar na carreira no Japão, Unõ tornou-se centro de um escândalo quando sua amante gueixa foi à mídia para revelar o caso e acusá-lo de avareza e arrogância. Tamanha foi a repercussão negativa, que Unõ teve que se demitir após somente dois meses no cargo. Por ter quebrado a regra nº 1 das gueixas - o voto de segredo - a comunidade das gueixas entendeu que a amante de Unõ sequer fosse uma gueixa. Quando muito, uma prostituta que se passava por gueixa. Gueixa ou não, o caso Unõ demonstrou que houve uma grande mudança de valores sociais no Japão, pois a relação extra-conjugal de um político com uma gueixa, algo que há muito tempo era aceito com naturalidade, deixou de sê-lo. As esposas japonesas, que hoje são também eleitoras, deixaram de ser tão complacentes e tolerantes com as amantes de seus maridos. A opinião pública masculina, por sua vez, achou que Unõ errou ao querer ter uma amante gueixa sem ter condições financeiras para tanto, ou seja, queria aparentar um status que não tinha condições de manter.
FUTURO INCERTO
Gueixas podem se casar, mas ao se casar deixam de ser gueixas. É comum elas se casarem com filhos ou netos de seus clientes - os próprios clientes normalmente se propõem a arranjar tais uniões. Mas via de regra, o marido japonês prefere que sua esposa não trabalhe fora, dedicando-se exclusivamente ao lar. Para uma mulher criada para dançar, tocar música, e acostumada a um estilo de vida de festas e quimonos caros, o papel de esposa confinada em casa é difícil de assimilar. Por isso, ao invés do casamento, muitas gueixas preferem permanecer solteiras e viver na okiya, dedicando-se ao karyukai até a morte. Ou, com sorte, arranjar um bom e rico danna.
Danna em japonês significa "patrono", mas no meio das gueixas designa um cliente que decide assumir uma gueixa como amante exclusiva. Normalmente os clientes de gueixas costumam ser bem mais velhos que elas - na meia-idade ou já na terceira idade, pois é em tal faixa etária que os homens alcançam o sucesso pessoal e financeiro. Quando um deles quer que uma determinada gueixa seja sua amante, ele deve negociar isso com a okaasan. Além de uma quantia a título de compensação à okiya pela educação e hospedagem da gueixa (algo que envolve algumas dezenas de milhares de dólares), a okaasan faz algumas exigências pela gueixa, para garantir que ela tenha um padrão de vida condizente com o que está acostumada, como uma casa ou apartamento próprio e uma mesada. Se o danna concordar com as exigências, e a gueixa aceitá-lo e estiver satisfeita com as condições, a gueixa torna-se independente. Mamika, famosa e refinada gueixa de Gion nos anos 90, revelou em entrevista para um documentário da tevê norte-americana que além de um confortável apartamento em Kyoto e uma mesada de 8 mil dólares, seu danna ainda lhe deu um título de sócia de um exclusivo clube de golfe e permitiu que ela continuasse atuando como gueixa. Mas quem é o seu danna, ela não revelou e nem deu pistas.
Ter um danna é o ideal de uma gueixa. Sendo amante, o dannanão irá morar permanentemente com ela, mas irá visitá-la de tempos em tempos, quando então ela se dedicará totalmente a ele. E se ele concordar, quando ele não estiver ela continuará a trabalhar como gueixa. Em tais casos, a gueixa costuma trabalhar em colaboração com outras gueixas de sua casa de origem apresentando-se em jantares, com a diferença de que ela é quem fará sua própria agenda e escolherá os clientes - algo que antes era feito pela okaasan. Manter segredo sobre seudanna e fidelidade a ele são considerados deveres da gueixa. Se ela faltar com tais deveres, a comunidade a isolará, o que tornará impossível que ela continue trabalhando como gueixa. Há, obviamente, muitas vantagens em ter um danna, mas o lado obscuro disso é que a gueixa pode ficar para sempre presa a alguém que não ama.
A atividade das gueixas sempre refletiu o grau de prosperidade econômica do próprio Japão. Quando os negócios vão bem, os clientes são numerosos e generosos. Quando há recessão, as agendas se esvaziam e gueixas se aposentam. Se nos anos da "bolha econômica" as gueixas tinham agenda lotada até a madrugada, atualmente há dias totalmente livres. Além de tais dificuldades, a própria atividade da gueixa hoje está ameaçada pela mudança de valores da sociedade japonesa, causada pela ocidentalização do pós-guerra.
Desde o fim da 2ª Guerra, o Japão foi reconstruído à imagem dos Estados Unidos. Tal influência propiciou rápido crescimento econômico e mudou de súbito valores e hábitos na sociedade japonesa. Em curto período, as mulheres passaram a estudar mais e a desenvolver carreiras que antes não lhes eram permitidas nos negócios e na política. Antes da guerra, na sociedade japonesa as mulheres eram subordinadas aos homens e viviam quase sempre em grupos e ambientes separados, nas escolas, no trabalho, no dia-a-dia. Parte do fascínio da gueixa estava no fato delas serem as poucas mulheres com quem homens podiam se relacionar em nível de parceria. Hoje, com oportunidades mais justas, homens e mulheres disputam os mesmos espaços e cargos, e procuram mais a parceria que a subordinação. Tais fatores, embora positivos, reduziram o apelo que a gueixa tinha.
Impulsionado pela tecnologia da internet e da telefonia móvel, o sexo no Japão virou um produto fácil, barato e oferecido em larga escala. O enjo kõsai (relacionamento financiado) é um serviço no qual estudantes colegiais se oferecem para programas, marcando encontros pelo celular. Sendo menores de idade, essas colegiais preferem usar o celular ao invés da internet, para não deixar evidências que podem ser vistas pelos pais. Na internet, além das modalidades mais corriqueiras de prostitutas, há outras que oferecem até donas de casa, "office ladies" e falsas gueixas: há de todos os feitiches para todos os gostos. Com tanta oferta no mercado do sexo, não faz sentido para os homens, principalmente os jovens, pagar uma fortuna para ter a companhia de uma gueixa e não ir automaticamente para a cama com ela. O menosprezo pela tradição também faz com que a gueixa lhes seja incompreensível e fora de moda. Os nostálgicos costumam criticar a "ocidentalização" excessiva de valores, que transforma tudo em mero comércio, e lamentam a perda da sensibilidade dos jovens para a sedução discreta e o refinamento da gueixa. Os japoneses entendem que mesmo para se deixar entreter por uma gueixa e apreciá-la, requer um certo grau de cultura do próprio cliente. A gueixa não é para qualquer um.
Talvez esteja neste ponto o valor da gueixa, e o que fará ela sobreviver: a raridade, a exclusividade, e a personificação daquilo que há de belo na alma do Japão. Ao longo dos séculos, as gueixas sobreviveram à mudança de governos e às guerras graças à dedicação de maikos e geikos determinadas, e à capacidade de se adaptarem a mudanças sem perder sua identidade. Dizer que elas estão ultrapassadas é um exagero. As gueixas continuam sendo um parâmetro de talento, elegância, beleza e caráter feminino na sociedade japonesa - senão não haveriam tantas imitadoras. Considere-se que mesmo no meio artístico atual, as cantoras do popular estilo enka procuram adotar o visual e os modos elegantes das gueixas. Dificuldades existem, mas certamente há futuro para a tradição da gueixa.
PARA SABER MAIS SOBRE GUEIXAS
O site Cultura Japonesa recomenda o livro GEISHA, de Liza Dalby. Em 1975, quando era estudante de antropologia, Dalby conseguiu o que nenhuma outra ocidental conseguiu até hoje: foi aceita como aprendiz em uma das mais tradicionais casas de gueixas de Pontochõ, um dos também tradicionais bairros de gueixas de Kyoto. Durante um ano, ela viveu entre gueixas como uma gueixa, para conhecer a fundo e compreender um mundo do qual o segredo é parte do estilo de vida. O resultado desta experiência é uma pesquisa rica e uma completa descrição dokaryûkai, o mundo das gueixas. Publicado pela University of California Press, a edição original em inglês é vendida pela internet, através da Amazon e da Barnes & Noble. O livro foi traduzido para o português com o título de GUEIXA, e é vendido sob encomenda pelas livrarias Nobel, Cultura e Saraiva.
Outro ótimo livro é GEISHA, A LIFE, de Mineko Iwasaki. A autora, nascida Masako Tanakaminamoto, ainda criança foi adotada pela renomada e tradicional casa de gueixas Iwasaki do bairro de Gion em Kyoto, e educada para ser a atatori - a gueixa herdeira e sucessora da casa. Rebatizada de Mineko Iwasaki, nos anos 70 ela alcançou fama e reconhecimento como a mais talentosa gueixa de sua geração, chocando a comunidade ao decidir aposentar-se no auge da carreira, aos 29 anos, para ter sua própria vida. Memórias de uma gueixa da vida real, Iwasaki escreveu esta auto-biografia em 2002. Traduzido do japonês para o inglês por Rande Brown, e publicado pela Washington Square Press, ainda não possui tradução para o português. Pode ser adquirido pela internet, através da Amazon e da Barnes & Noble.
Na tevê paga, o canal A&E Mundo freqüentemente reprisa o ótimo documentário especial GUEIXA.
Kabuki
UMA FORMA DE TEATRO POPULAR ESTILIZADO. O exagerado levado aos extremos faz com que seja mais fantástica ainda. O Kabuki representa a arte popular dos últimos IV séculos, quebrando de vez com o requinte aristocrático de então. Em vez da moral silenciosa do zen, o kabuki foi o inverso de tudo que já se fez em termos de arte no Japão da época. O Kabuki surge junto aos comerciantes que fomentam a transformação dos ideais da sociedade. Como que até aquela época o país estivesse fechada aos anseios da população, dominada sob o estigma dos guerreiros samurais, agora, quando reina a paz e a tranqüilidade embevece o país, o pensamento volta-se para “recuperar” o tempo perdido. De repente um matraquear quebrando o silêncio: as cortinas nas cores preta, marrom e verde dão descerradas e o cenário surge desplendorosamente rica em cores berrantes com adereços por todo o lado. Está dando início a mais um espetáculo de kabuki, o mais popular teatro tradicional japonês. O que causa maior impacto é o efeito visual levado aos extremos do exagero, onde cada detalhe possui importância vital para compor o clima da época, fantasticamente delineada. Assistir a esse espetáculo só é possível indo ao Japão ou aproveitando as turnês que as companhias kabuki fazem ao redor do mundo. Para os japoneses, o kabuki é a arte dedicada ao deleite da gente comum, satisfazendo os caprichos contemporâneos, gostos e desejos de uma época. Em todos os aspectos, ele é elegante e vulgar, cômico e trágico, desenvolvendo o tema central da peça através de um ritmo que compõe-se de ka, bu, ki, ou seja, “cantar”, “dançar” e “representar”. O teatro kabuki não deve ser visto como algo muito sério, intelectual ou filosófico, mas como uma representação elaborada de entretenimento popular que não deixa de ter suas raízes artísticas. Apesar dos 400 anos que o separa de sua remota origem, a continuação do kabuki é decorrente da herança familiar dos atores que estão a dezesseis gerações ininterruptas nessa atividade artística. As peças em sua grande maioria são tiradas dos fatos da gente comum e também da vida aristocrática. Num processo acumulativo, o kabuki veio associando influências em primeiro lugar no teatro Nô e do Kyogen e, posteriormente refugiou-se dentro do enredo do Bunraku (teatro de marionetes). O kabuki passou então a se definir com as próprias características no fim do século XIX, quando ocorreu sua fase de amadurecimento. Transformando-se em mulher. No início só as mulheres atuavam dentro do kabuki e vestiam se como homens ao representarem personagens masculinos. O governo proibiu o “Okuni-kabiki”, como era chamado, devido ao escândalo que provocou na época, quando os homens que ia assistir estavam mais preocupados com a beleza das atrizes do que propriamente com o espetáculo. O “okuni” dava ênfase exagerada no sensual e no sensacional, convertendo-se no fator decisivo da imoralidade da sociedade, amante do prazer e das coisas mundanas. Tudo isso era reflexo da era Genroku, séc. XVII. Posteriormente surgiu o “Wakashu-kabiki”, formado unicamente por rapazes, mas acabou se degenerando e finalmente proibido também. O verdadeiro kabuki como conhecemos hoje surgiu posteriormente formado somente por homens. A arte de se transformar em mulher foi criada na época em que atores especializavam-se nessa modalidade. A beleza de “Onnagata” obedeceu a um padrão idealizado por homens, ou a forma de como a mulher devia portar-se. Aquela feminilidade exagerada não é natural do desempenho de uma mulher, mas calcada em certos conceitos da observação masculina. Na Inglaterra da Idade Média, os atores das peças Sheakesperiana também tinham que se travestir-se de mulheres, não sendo, portanto uma característica unicamente do Japão. Assumindo o personagem. O que realça a presença dos artistas kabuki é a maquiagem altamente estilizada, marcando os contornos dos olhos, os cílios e a boca. Cada cor está ligada a uma simbologia que representa o temperamento do personagem, assim como o branco é usado por mulheres e jovens apaixonadas, o vermelho retrata a ira e a cólera, o cinza a melancolia, azul-preto os vilões e o verde os espíritos diabólicos e visitantes de outro mundo. A vestimenta participa desse conjunto multicor ajudando a caracterizar o ator kabuki. Tudo é absurdamente exagerado o que o torna mais atraente. O choque visual não se limita somente a esses parâmetros; a mímica possui força de expressão, os movimentos são feitos em cadência com alto nível de perfeição sugestiva culminando em uma pose dinâmica de equilibrada força e beleza conhecida como “Mie”. O “Mie” é a pose exagerada e estilizada algumas vezes conduzido por um só ator, outras pelo grupo todo, quando de uma cena que tenha que expressar ira, determinação ou outro sentimento de emoção forte que a situação exija. Os olhos enviesados, os braços estendidos, dedos rijos, provocam uma impressão de força concentrada e precisa. Pode até ser grotesco e sobre-humano, mas insere em si o eixo central da arte kabuki. Por um repertório popular. O kabuki por atuar dentro das camadas populares não se preocupava em agradar o governo como fazia o teatro Nô. Os dramas históricos são tratados até com ironia em que guerreiros e nobres são figuras centrais de tais narrações; a maioria derivada do Bunraku (teatro de marionetes). O drama doméstico por outro lado, é essencialmente voltado para a vida da classe plebéia identificando-se com seus problemas e sonhos. No kabuki, o real parece mergulhar para o campo da encenação, dando lugar para os aspectos superficiais da elocução e da cor. A própria estória relegada a um segundo plano. O kabuki sempre esteve atento às exigências de sua época, adaptando-se às condições do momento. A vivacidade está justamente nessa constante renovação que torna a temática mais popular. Agora, com a vinda dos tempos modernos, o kabuki viu-se forçado novamente a buscar apoio junto ao se grande público. Em contrapartida, surgiu o teatro contemporâneo junto a outras formas de lazer. O kabuki defronta-se com esse dilema: manter-se como está ou absorver influências do mundo atual. É um problema que cabe ao próprio teatro kabuki resolver. Autor: Francisco Handa – doutor em história pela UNESP, desenvolve pesquisa sobre cultura tradicional japonesa. É monge da escola Soto Zenshu.
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